Skincare seguro para crianças: mito ou realidade?

Skincare seguro para crianças: mito ou realidade?

O interesse de crianças por cuidados com a beleza da pele tem aumentado. Porém, essa novidade preocupa dermatologistas e pediatras

Por Simone Saintive
Pediatra e dermatologista
Chefe do Serviço de Dermatologia Pediátrica do IPPMG/UFRJ

 

É cada vez mais comum que pacientes pediátricos solicitem a prescrição de uma rotina de skincare, muitas vezes já nos trazendo os nomes ou até os frascos dos produtos que desejam usar. Essa mudança na relação das crianças com produtos cosméticos vem sendo motivo de preocupação para dermatologistas e pediatras. 

Para cuidar da nova geração – que cresce assistindo a tutoriais de maquiagem e seguindo influencers, que surgem em suas telas com a pele impecável sob o efeito de filtros e outros truques do mundo virtual – é preciso ir além da simples proibição. É importante abordar temas como tempo de tela, autoestima, relação com o consumo e até excluir comportamentos mais preocupantes, como dismorfofobia ou “cosmeticorexia”. Por outro lado, a supervalorização do skincare pelas crianças pode e deve ser aproveitada para estimular práticas que há muito recomendamos, como a hidratação da pele e o uso rotineiro de um fotoprotetor. Sendo assim, é fundamental relembrar os ingredientes e ativos não recomendados para uso infantil, com especial atenção às substâncias irritantes, sensibilizantes e aos disruptores endócrinos.

Maior vulnerabilidade

Além da menor espessura da camada córnea, crianças têm uma maior superfície corporal por unidade de peso do que os adultos, resultando em maior absorção percutânea de produtos de uso tópico. Somando-se a isso a imaturidade imunológica e a de algumas vias de metabolização de drogas, além do fato de estarem em período crítico de desenvolvimento e amadurecimento de diversos tecidos e funções, essa faixa etária é especialmente vulnerável à ação de substâncias sensibilizantes e disruptores endócrinos, além de outros efeitos adversos como irritação da pele, neurotoxicidade e ação carcinogênica.

Idealmente, devemos usar produtos infantis até a puberdade, mas este rótulo não basta para garantir uma boa escolha. Existem diversos itens de skincare para uso adulto que são seguros para uso em crianças, assim como muitos produtos infantis contendo substâncias que preferimos evitar. Portanto, é importante que o dermatologista que atende crianças reconheça os ingredientes considerados inadequados para uso neste grupo de pacientes, garantindo uma prescrição segura.

Precisamos falar sobre disruptores endócrinos

Os disruptores endócrinos, substâncias capazes de mimetizar ou de interferir na ação hormonal, são os principais compostos a serem evitados, principalmente ftalatos, parabenos, triclosan e fragrâncias sintéticas, além de alguns filtros solares como a oxibenzona. Outras substâncias, como o BHT, são consideradas disruptoras apenas em altas concentrações, mas seu uso na população pediátrica não é consenso. Um dos maiores problemas em relação a esse grupo de substâncias é o ingrediente “parfum”, que pode englobar diversas fragrâncias sintéticas que não precisam ser descritas uma a uma nos rótulos, mas algumas delas podem ter ação disruptora.

Outro grupo de substâncias a ser usado com cuidado é aquele dos potenciais sensibilizantes, como corantes, fragrâncias e alguns ingredientes derivados dos alimentos mais alergênicos, como o leite de vaca, lembrando que a pele, principalmente nos indivíduos atópicos, com a barreira cutânea disfuncional, pode ser local de sensibilização. Geraniol, citronelol, parfum, formaldeído, entre outros são ingredientes a serem evitados. Substâncias potencialmente irritantes, como retinol e ácido glicólico, não devem ser usadas de rotina. Outra preocupação é a de adequar os veículos às características da pele infantil, evitando o surgimento de acne cosmética.

Concluindo

O dermatologista deve incentivar a prática saudável do skincare em crianças, reforçando o uso rotineiro de agentes de limpeza adequados, hidratantes e fotoprotetores, restringindo o uso de outros produtos como esfoliantes, máscaras faciais, maquiagem, esmaltes e cosméticos, estimulando e orientando a família e a criança a usar apenas os produtos necessários e sem ingredientes potencialmente prejudiciais, sempre sob a supervisão de um adulto.

Leitura recomendada:

Katelyn H. Wong and Timur S. Durrani. Exposures to Endocrine Disrupting Chemicals in Consumer Products – A Guide for Pediatricians.Curr Probl Pediatr Adolesc Health Care 2017;47:107-118