Saúde mental na prática dermatológica-teste

Levante a mão quem não tem ou nunca teve um paciente difícil. E não estamos falando de dificuldades relacionadas à dermatologia ou a uma doença específica, mas ao comportamento do próprio paciente, que coloca suas expectativas no médico. Este, por sua vez, acaba sendo levado ao extremo e, diante de suas outras atividades, sente-se esgotado, desmotivado.

Se identificou? Este é um problema muito comum na medicina, tanto que, em novembro, o Ministério da Saúde incluiu a Síndrome de Burnout na lista de doenças relacionadas ao trabalho. E é sobre este assunto que o Dr. Decio Tenenbaum discorre a seguir em seu artigo exclusivo para esta edição da Rio Dermatológico.

Por Decio Tenenbaum

decio@tenenbaum.com.br

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Médico, psicanalista, full member of the International Psychoanalytical Association, chefe do Setor de Dermatologia Psicossomática do Instituto de Dermatologia Prof. Rubem David Azulay

A prática clínica possui uma peculiaridade que a torna sempre difícil: ela se estrutura a partir do estabelecimento de um tipo especial de relação. A relação médico-paciente, remunerada ou não, é sempre uma relação de ajuda e cuidado. Não são poucos os pacientes aos quais essa situação de dependência os faz interagir desagradavelmente, induzindo estados emocionais dissonantes em quem os está atendendo. E as expressões dermatológicas de sofrimentos mentais decorrentes de insatisfações pessoais com a vida, consigo próprio e com o próprio corpo, que pode chegar ao transtorno dismórfico corporal – comum naqueles que procuram a dermatologia estética – complicam ainda mais a prática dermatológica.

Por outro lado, também não é simples passar o dia ajudando, cuidando e dando a atenção que a tarefa assistencial exige. E, como qualquer outro profissional, os(as) médicos(as) também passam por circunstâncias existenciais que podem interferir na disposição interior de ajudar, cuidar e dar atenção. A sobrecarga emocional não é rara nesse tipo de trabalho.

Alguns pacientes mobilizam especialmente o profissional que os atende, tornando os atendimentos mais complicados, embora não necessariamente em decorrência da gravidade de suas doenças, mas por características psicológicas para as quais o profissional não está adequadamente preparado ou porque foi pego num dia ruim. Como o estabelecimento e o manejo da relação terapêutica têm dependido mais da habilidade pessoal do que do conhecimento específico, a emergência de tensões psicológicas é não só usual como esperada e observa-se com frequência a ocorrência de reações emocionais nos envolvidos no atendimento que dificultam a aliança terapêutica e induzem a iatropatogenia e a Síndrome de Burnout.

Essas são as situações pessoais que frequentemente sobrecarregam o trabalho assistencial, mas existem outras relacionadas a etapas específicas do processo terapêutico (Tenenbaum, 2017). Conhecer as principais tensões psicológicas presentes no trabalho assistencial e as situações assistenciais mais propensas a desencadear tais tensões costuma ser de ajuda ao profissional no desempenho de suas funções. Além disso, não é saudável ficar sobrecarregado sozinho. É sempre bom buscar a interlocução, com colegas mais experientes e especialistas em psicologia médica que coordenam grupos organizados para a discussão da tarefa assistencial. Acima de tudo, aos primeiros sinais de sobrecarga recorrente o melhor é procurar um colega psicoterapeuta.

Bibliografia Tenenbaum, D. “As principais tensões psicológicas presentes na prática assistencial hospitalar”. Appris, 2017.