Ressonância Magnética na dermatologia: novas perspectivas e aplicações dos Biomodelos 3D
Autores:
Clarissa Canella
Robertha Nakamura
Andreia Leverone
Miguel Ceccarelli
A ressonância magnética com bobina de superfície tem se mostrado uma ferramenta valiosa na avaliação detalhada de lesões de pele e ungueais. Essa técnica permite uma visualização de alta resolução das estruturas superficiais, incluindo a epiderme, derme, hipoderme e a unidade ungueal, sem o uso de radiação ionizante, sendo uma alternativa ao exame ultrassonográfico. A bobina de superfície, posicionada próxima à área de interesse, aumenta significativamente a sensibilidade e a qualidade da imagem, facilitando a detecção e caracterização de lesões cutâneas e periungueais, diferenciação entre tecidos moles e a avaliação da extensão das lesões em profundidade, o que é fundamental para o planejamento terapêutico e cirúrgico.
Diferentemente da ultrassonografia, a ressonância magnética permite a utilização de diferentes sequências, o que é fundamental para a diferenciação dos diversos tipos de tecidos e a caracterização precisa das lesões cutâneas e ungueais. Sequências como T1, T2, STIR, GRE e outras com supressão de gordura ou contraste paramagnético auxiliam na identificação de componentes específicos, como melanina, hemossiderina, material ósseo ou cálcico. Além disso, técnicas avançadas como a RM com contraste dinâmico (DCE-MRI) e a difusão (DWI) possibilitam o estudo da vascularização, perfusão e permeabilidade tumoral, aspectos essenciais para a distinção entre lesões benignas e malignas.
Outra aplicação da ressonância magnética é a utilização de sequências isotrópicas para obtenção de imagens virtuais que podem gerar Biomodelos 3D. Os biomodelos representam um avanço de ponta na tecnologia de imagem médica. Eles são criados a partir da transformação de dados de exames de imagem, incluindo imagens isotrópicas de tomografias computadorizadas (TC) e ressonâncias magnéticas (RM) em representações anatômicas tridimensionais detalhadas. O processo de conversão dessas imagens em biomodelos 3D é chamado de segmentação, uma técnica avançada de pós-processamento de imagem que rotula cada voxel como parte de uma estrutura específica da lesão. O software de segmentação então renderiza todos os voxels com o mesmo rótulo em superfícies 3D para criar o modelo. A exatidão e precisão na impressão de biomodelos e biomateriais têm melhorado continuamente, garantindo que as réplicas 3D sejam fiéis à anatomia individual do paciente.
A integração de dados de RM e criação de biomodelos 3D oferece múltiplas vantagens na prática cirúrgica dermatológica:
• Planejamento Cirúrgico Aprimorado: a RM fornece a base de dados detalhada que, ao ser transformada em um biomodelo 3D, permite o planejamento cirúrgico virtual, definindo estratégias e antecipando desafios. Isso contribui para a redução dos tempos cirúrgicos e melhores resultados para o paciente.
• Compreensão Anatômica Detalhada: a RM permite a visualização de estruturas anatômicas complexas e a relação entre as lesões e os tecidos adjacentes em três dimensões, o que é crucial para entender a profundidade da lesão e o envolvimento ósseo.
• Comunicação Médico-Paciente Melhorada: biomodelos 3D virtuais e impressos, derivados de imagens de RM, são significativamente mais acessíveis para a compreensão dos pacientes em comparação com imagens complexas de ultrassom ou da própria RM. Essa clareza permite que os pacientes compreendam os riscos potenciais do tratamento e tomem decisões mais informadas, aumentando sua confiança no médico e no procedimento.
• Educação e Treinamento Médico: a combinação de RM e biomodelos 3D oferece novas maneiras de educação e treinamento para dermatologistas por meio de simulação cirúrgica. Em um ambiente seguro, os médicos podem refinar estratégias e antecipar possíveis complicações, promovendo um aprendizado mais rápido.
Em conclusão, a ressonância magnética desempenha um papel fundamental e indispensável na era moderna da dermatologia cirúrgica. Ao fornecer dados detalhados para a criação de biomodelos 3D, a RM transforma o planejamento pré-operatório, melhora a precisão cirúrgica, a comunicação com o paciente e a educação médica. Essa tecnologia representa um passo significativo para o aprimoramento contínuo dos cuidados e resultados para pacientes com lesões dérmicas e da unidade ungueal.
Figura 1

Tumor glômico numa paciente de 32 anos. A ressonância magnética com contraste foi crucial para a visualização da lesão em 3D, permitindo que os médicos interagissem com a lesão em realidade virtual e aumentada para realizar o planejamento cirúrgico. A ressonância magnética com contraste detalhou uma lesão hipercaptante, e sua reconstrução 3D ilustrou a lesão em relação com o osso e vasos adjacentes. Essa abordagem, facilitada pela RM, guiou a criação de um dispositivo cirúrgico personalizado que permitiu a remoção minimamente invasiva do tumor de forma segura e em curto espaço de tempo.
Figura 2
Ceratoacantoma subungueal em um paciente de 60 anos, a ressonância magnética com bobina de superfície revelou uma lesão oval, mal delimitada, com hipersinal nas imagens ponderadas em T1, e evidenciou irregularidade cortical da falange distal, além de edema nos tecidos moles adjacentes. Erosão com aspecto de taça na falange distal foi identificado sendo muito sugestivo de ceratoacantoma. A reconstrução 3D derivada da RM ilustrou detalhadamente o tumor e relação com as placas ungueais e o osso adjacente. Isso permitiu à equipe cirúrgica uma compreensão anatômica abrangente e uma melhor antecipação das dificuldades cirúrgicas, sendo fundamental para o planejamento de uma cirurgia conservadora e funcional.

Referência:
Nakamura RC, Leverone A, Avila de Almeida C, Werner H, Canella C. Advantages of Nail Surgical Procedures Using a 3D Biomodel. Skin Appendage Disord. 2024 Aug;10(4):312-320.