Os novos desafios ambientais que estão redefinindo a fotoproteção

Os novos desafios ambientais que estão redefinindo a fotoproteção

Você já atendeu um paciente que usa protetor solar todos os dias, mas ainda assim apresenta manchas e sinais de envelhecimento precoce? Esse cenário mostra que a proteção solar vai muito além do bloqueio ao UVB.

Hoje, fatores como a exposição contínua à radiação UVA, as altas temperaturas (que reduzem a eficácia do protetor solar com a sudorese) e a poluição urbana (que intensifica os danos oxidativos) estão exigindo uma abordagem mais ampla da fotoproteção.

Para compreender como esses elementos ambientais afetam a eficácia dos protetores e quais inovações estão sendo incorporadas — incluindo defesa contra luz visível, infravermelho e a chamada fotopoluição — conversamos com o Dr. Sérgio Schalka (CRM: 70148 / RQE: 32981), dermatologista e um dos maiores especialistas brasileiros em fotoproteção.

Nesta entrevista, ele explica como a ciência está avançando para responder aos desafios do nosso tempo e proteger melhor a saúde da pele. Confira!

RioDermatológico: As mudanças climáticas têm influenciado a intensidade e a frequência da radiação UV a que estamos expostos no dia a dia?
Dr. Sérgio Schalka: As mudanças climáticas observadas não têm aumentado a intensidade da radiação UV. Eu tenho conversado com muitos climatologistas, trabalhando especificamente esse assunto. As mudanças climáticas estão aumentando a temperatura média e, com isso, têm outros impactos, mas a temperatura média não está relacionada à radiação UV — basicamente infravermelha, uma outra parte da radiação solar.
Então, respondendo: não, as mudanças climáticas têm impactado outras coisas, mas não a radiação UV a que estamos expostos no dia a dia.

Temperaturas mais elevadas podem comprometer a estabilidade e a eficácia dos filtros solares? Como isso afeta a proteção oferecida aos consumidores?
Sim, parcialmente, a temperatura mais elevada pode comprometer duas características importantes. A primeira, mais perceptível ao consumidor, é o aumento da sudorese: o suor remove parte do protetor solar da pele, reduzindo a durabilidade do filme fotoprotetor e, consequentemente, diminuindo o tempo de proteção oferecido.

Ainda não há dados suficientes para comprovar esse impacto de forma definitiva — trata-se de uma ilação baseada na relação entre o aumento da temperatura e seus efeitos. Por isso, recomenda-se sempre a reaplicação do protetor solar em casos de sudorese intensa, mesmo que antes do intervalo de duas horas habitualmente recomendado.
Outro ponto importante — especialmente nos verões e em cidades muito quentes — é o cuidado com o armazenamento do produto. Deixar o protetor solar, por exemplo, dentro do carro sob altas temperaturas pode comprometer sua estabilidade. Apesar de os testes de qualidade preverem resistência até cerca de 60 °C, na prática, muitas vezes observamos derretimento de sticks, o que pode alterar a qualidade do produto dentro do frasco.

Esse é um cuidado essencial que sempre reforçamos: evite deixar o protetor solar exposto a calor extremo, como no interior de veículos ao sol.
Uma outra realidade climática importante é o aumento da poluição ambiental, que chamamos de fotopoluição. É a combinação da radiação UV, principalmente UVA, com a poluição. Esses dois fatores combinados aumentam o estresse oxidativo da pele e, portanto, aumentam esses danos decorrentes do estresse oxidativo.

Especialmente — já mais bem demonstrado — o aparecimento de manchas e, mais tardiamente, o envelhecimento. Então, pessoas que vivem em cidades mais poluídas precisam se proteger também desses efeitos da combinação de radiação com poluição.

Quais tecnologias ou ativos modernos estão sendo incorporados aos fotoprotetores para atender a essa nova realidade climática e ambiental?
Há duas linhas: a linha da incorporação de novos e modernos filtros contra a radiação UVA, ou a combinação dos filtros contra o UVA já existentes. Ampliar a proteção contra o UVA é uma das estratégias de combater o efeito das alterações climáticas, principalmente em relação à fotopoluição. E ativos de ação antioxidante ou de ação biológica que podem ser incorporados contra os efeitos agressores da poluição e do infravermelho que, em última análise, é a resposta do aquecimento global.

Então, para esses dois fatores ambientais — poluição e infravermelho — não existem filtros propriamente ditos. Existem outros ativos, ou alguns chamam de filtros biológicos, que são esses ativos que normalmente agem para uma ação antioxidante, uma ação biológica.

Essa combinação, integrada ao complexo de filtros UVB e UVA, e muitas vezes incluindo proteção contra a luz visível, contribui para ampliar a defesa contra os efeitos negativos das alterações climáticas.


Como os dermatologistas devem adaptar suas recomendações de fotoproteção frente às mudanças climáticas e à nova geração de agressores ambientais?

Reforçar a importância da fotoproteção diária. Essa é uma recomendação que já vem sendo feita há algum tempo, mas está cada vez mais evidente que a proteção solar não é uma estratégia exclusiva para o verão, para a praia ou para a prática de esportes ao ar livre. Ela deve fazer parte da rotina diária.

É no dia a dia que estamos expostos aos efeitos da poluição e à maior parte da radiação UVA. Para se ter uma ideia, cerca de 70% da radiação que recebemos ao longo da vida provém dessas atividades cotidianas: sair para almoçar, levar os filhos à escola, dirigir entre compromissos… são pequenos deslocamentos que, somados, resultam em uma exposição significativa. E é justamente nessa exposição diária que os efeitos das mudanças climáticas se tornam ainda mais presentes — seja pelas ilhas de calor nas grandes cidades, seja pela poluição atmosférica — muitas vezes até mais do que durante a exposição ocasional na praia.

Por isso, é essencial que os profissionais de saúde, especialmente os dermatologistas, orientem seus pacientes sobre a importância da fotoproteção diária como parte fundamental dos cuidados com a pele.