O papel do dermatologista junto ao paciente transgênero

O papel do dermatologista junto ao paciente transgênero

 

Hoje em dia, mais do que somente atender é preciso compreender as particularidades do seu paciente. E quando o assunto é o paciente transgênero, o respeito deve sempre vir acompanhado da compreensão e da empatia, sem julgamentos. Afinal, além de enfrentar uma maior vulnerabilidade social, o que interfere negativamente em sua busca por atendimento médico, a pessoa trans ainda enfrenta diversas batalhas pessoais – como uma maior incidência de doenças infecciosas e altos índices de transtornos de saúde mental, que exercem um grande impacto na pele.

Para que você saiba como atender e auxiliar o paciente transgênero em sua jornada, conversamos com o Dr. Felipe Aguinaga, Coordenador do Ambulatório de Diversidade de Gênero do Instituto de Dermatologia Prof. Rubem David Azulay da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro:

 

Rio Dermatológico: Partindo dos conceitos básicos para os dermatologistas, o que é um homem trans e uma mulher trans?

Dr. Felipe Aguinaga: Identidade de gênero diz respeito à percepção interna e subjetiva que cada pessoa tem sobre seu próprio gênero, podendo ou não corresponder ao sexo atribuído ao nascimento.

Um homem transgênero é uma pessoa designada como mulher ao nascer, mas que se identifica e vive como homem. Este processo de transição pode envolver mudanças sociais, hormonais (como terapia com testosterona), e cirurgias de afirmação de gênero (como a mastectomia) para alinhar seu corpo com sua identidade de gênero.

Uma mulher transgênero é uma pessoa designada como homem ao nascer, mas que se identifica e vive como mulher. A transição de uma mulher trans pode incluir aspectos sociais, hormonais (como terapia com estrogênio e antiandrogênicos), e cirurgias de afirmação de gênero (como mamoplastia de aumento e cirurgia genital).

Vale lembrar que nem todas as pessoas trans se identificam estritamente como homens ou mulheres. Algumas pessoas se identificam como não-binárias, queer ou outros termos que descrevem identidades de gênero fora do binário masculino-feminino.

 

Rio Dermatológico: Quais as principais queixas dermatológicas dos pacientes trans?

Dr. Felipe Aguinaga: Entre homens trans, a acne é sem dúvida a queixa mais comum devido à terapia com testosterona. Além disso, o uso de testosterona pode levar a quadros de alopecia androgenética. Muitos homens trans buscam tratamentos para aumentar pelos faciais e corporais, além de procurarem tratamento para cicatrizes cirúrgicas após a mastectomia.

 A maior demanda entre mulheres trans é a redução de pelos faciais e corporais através de tratamentos a laser ou eletrólise. Há também uma procura cada vez maior por procedimentos minimamente invasivos para auxiliar na feminização facial. A alopecia androgenética é outra queixa muito frequente. Embora a terapia com estrogênio e antiandrogênicos ajude a tratar essa condição, é um traço em geral muito indesejado. Infelizmente ainda é comum no Brasil o uso ilícito de silicone líquido industrial para modificações corporais entre mulheres trans e travestis, acarretando complicações dermatológicas e sistêmicas diversas.

Sabemos que a população trans está em uma situação de maior vulnerabilidade social, que está relacionada a vários desfechos negativos de saúde. Por exemplo, há uma maior incidência de ISTs e AIDS entre mulheres trans, além de índices elevados de depressão, ansiedade e outros transtornos de saúde mental, que têm grande impacto nas doenças de pele em geral.

 

Rio Dermatológico: Quais procedimentos dermatológicos esses pacientes costumam realizar?

Dr. Felipe Aguinaga: Um dos procedimentos mais realizados é a depilação a laser, especialmente por mulheres trans. Além disso, procedimentos minimamente invasivos como toxina botulínica e preenchimento são cada vez mais buscados para ajudar no processo de feminização ou masculinização facial.

Cirurgias como o transplante capilar e procedimentos para tratar cicatrizes também são frequentemente realizados por esses pacientes.

 

Rio Dermatológico: O que os dermatos devem fazer para atender (e entender) melhor o paciente trans? 

Eu acredito que nós, dermatologistas, temos um papel essencial nos cuidados em saúde de pacientes trans. Além de estarmos aptos a diagnosticar e tratar possíveis complicações dermatológicas dos tratamentos hormonais e cirúrgicos, temos uma gama de procedimentos e tecnologias a oferecer que podem auxiliar no processo de afirmação de gênero. Além disso, os dermatologistas têm um entendimento profundo da relação entre aparência, autoestima, identidade e saúde mental. Portanto, estamos bem posicionados para oferecer um cuidado sensível às necessidades dos pacientes trans.

É importante buscar educação contínua sobre essas questões, criar um ambiente acolhedor e sem julgamentos, garantindo que a equipe esteja treinada para usar pronomes e nomes corretos e manter uma comunicação aberta e respeitosa para fornecer um atendimento inclusivo e de qualidade aos pacientes trans.

 

Que tal se aprofundar neste assunto?

Lagacé, F., et al (2023). The Role of Sex and Gender in Dermatology – From Pathogenesis to Clinical Implications. Journal of cutaneous medicine and surgery, 27(4), 1–36

Yeung, H., et al (2019). Dermatologic care for lesbian, gay, bisexual, and transgender persons: Terminology, demographics, health disparities, and approaches to care. Journal of the American Academy of Dermatology, 80(3), 581–589.

Yeung, H., et al (2019). Dermatologic care for lesbian, gay, bisexual, and transgender persons: Epidemiology, screening, and disease prevention. Journal of the American Academy of Dermatology, 80(3), 591–602.

MacGregor, J. L., & Chang, Y. C. (2020). Minimally Invasive Procedures for Gender Affirmation. Dermatologic clinics, 38(2), 249–260.

Beuttler, M., & MacGregor, J. (2022). A Genderfluid Approach to Aesthetic Language in Dermatology. Journal of drugs in dermatology, 21(1), 96–99.