O papel da ultrassonografia no diagnóstico de tumores melanocíticos

O papel da ultrassonografia no diagnóstico de tumores melanocíticos

A ultrassonografia de alta frequência tem se destacado como uma ferramenta essencial no diagnóstico e acompanhamento dos tumores melanocíticos, trazendo mais precisão e segurança para a prática dermatológica.

Para entender melhor o impacto dessa tecnologia, conversamos com a Dra. Elisa Barcaui (CRM 52.64305-0 | RQE 41520), dermatologista especialista em Ultrassonografia de Alta Frequência Cutânea. Nesta entrevista, ela explica como esse método auxilia na diferenciação entre lesões benignas e malignas, no estadiamento do melanoma e no monitoramento de pacientes, oferecendo insights valiosos sobre suas aplicações e limitações.


Rio Dermatológico: Como a ultrassonografia tem sido utilizada no diagnóstico e na avaliação de tumores melanocíticos? Quais os principais benefícios dessa tecnologia para a prática dermatológica?
Dra. Elisa Barcaui: A ultrassonografia cutânea, especialmente com o uso de transdutores de alta frequência acima de 20 MHz, tem se mostrado uma ferramenta complementar útil no contexto da oncologia dermatológica. Sua utilização permite a análise não invasiva da morfologia e da ecogenicidade tumoral, além da mensuração da espessura das lesões melanocíticas que, no caso do melanoma, é o seu principal parâmetro prognóstico. Adicionalmente, o estudo com o Doppler possibilita a avaliação da vascularização tumoral. Essas informações podem orientar decisões terapêuticas antes mesmo da exérese cirúrgica definitiva, além de auxiliar na definição de margens cirúrgicas apropriadas e na indicação de procedimentos como biópsia do linfonodo sentinela.

A coordenadora do setor de Fototerapia da SBDRJ, Dra. Márcia de Matos Silva, reforça que em 2009 a IARC, agência da Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou oficialmente o bronzeamento artificial como um carcinógeno humano. “Toda a radiação ultravioleta, incluindo a emitida por dispositivos de bronzeamento, foi enquadrada no Grupo 1 de carcinógenos, a mesma categoria do tabagismo e do amianto, devido à sua forte associação com o desenvolvimento de câncer de pele”, explica a médica.
Dr. Felipe alerta que o bronzeamento artificial pode causar danos tanto a curto quanto a longo prazo, trazendo sérias consequências clínicas para a pele e a saúde em geral – como a imunossupressão cutânea, tornando a pele mais suscetível a infecções e comprometendo sua capacidade de reparação. “A radiação UV pode causar alterações na pigmentação cutânea, como hiperpigmentação irregular e agravamento do melasma. Além disso, os danos não se restringem à pele: a falta de proteção ocular adequada pode levar a problemas como ceratite, catarata precoce e degeneração macular”, explica o dermatologista.

Entre os principais benefícios da ultrassonografia na prática dermatológica, destacam-se:

– Avaliação em tempo real e de forma não invasiva, com excelente resolução das estruturas cutâneas e subcutâneas;
– Acompanhamento longitudinal de lesões melanocíticas suspeitas, permitindo detectar alterações no padrão ecográfico e vascular ao longo do tempo;
– Auxílio na diferenciação entre tumores benignos e malignos, principalmente através da análise da vascularização;
– Mapeamento de lesões subclínicas, inclusive linfonodais, favorecendo o estadiamento inicial adequado.

Em síntese, a ultrassonografia representa uma importante aliada na abordagem dos tumores melanocíticos, agregando precisão diagnóstica, segurança e individualização no manejo terapêutico dos pacientes.


Quais características ultrassonográficas ajudam a diferenciar lesões melanocíticas benignas das malignas, especialmente no caso do melanoma?
Os tumores melanocíticos benignos (nevos melanocíticos) e os malignos (melanoma) se apresentam, à ultrassonografia de alta frequência no modo B (escala de cinza), como uma imagem hipoecogênica, de conteúdo sólido. Entretando, os melanomas tendem a apresentar ecogenicidade reduzida em comparação ao tecido circunjacente.

Com relação ao formato, tanto as lesões névicas como o melanoma exibem, na sua grande maioria, formato irregular. Lesões malignas costumam apresentar crescimento com maior proporção craniocaudal, diferentemente das lesões benignas, geralmente mais simétricas. Os nevos melanocíticos geralmente apresentam textura heterogênea, enquanto os melanomas, homogênea.

Com relação às margens, os nevos melanocíticos podem se apresentar como circunscritas ou não circunscritas, enquanto os melanomas evidenciam, na sua grande maioria, margens não circunscritas. O padrão de vascularização tumoral avaliado pela ultrassonografia Doppler é o achado mais relevante na avaliação das lesões melanocíticas. A presença de vascularização interna ao Doppler sugere neovascularização. Desta forma, os melanomas apresentam, quase que integralmente, padrão de vascularização positivo ao mapeamento Doppler enquanto os nevos melanocíticos são, frequentemente, não vascularizados.

A presença de áreas anecóicas dentro da massa tumoral pode sugerir áreas de necrose e, quando presentes, sugerem o diagnóstico de melanoma. É importante destacar que, embora a ultrassonografia ofereça informações valiosas, seu papel é complementar, devendo ser integrada aos dados clínicos, dermatoscópicos e, de fundamental importância, histopatológicos.


Além do diagnóstico inicial, a ultrassonografia pode auxiliar no acompanhamento de pacientes com melanoma? Quais informações adicionais ela pode fornecer em relação à profundidade e extensão da lesão?
Sim, além do diagnóstico inicial, a ultrassonografia tem papel relevante no acompanhamento de pacientes com melanoma, tanto no controle da lesão primária quanto na detecção precoce de recidivas locais, metástases subcutâneas e linfonodais. No contexto do seguimento clínico, a ultrassonografia pode fornecer as seguintes informações adicionais:

1. Avaliação da espessura tumoral
A medição da espessura por meio da ultrassonografia de alta frequência (≥20 MHz) permite estimar a espessura da lesão antes da realização da biópsia excisional. Trabalhos recentes mostram que este conhecimento pode antecipar decisões clínicas, como a extensão das margens cirúrgicas e a indicação de biópsia do linfonodo sentinela. Estudos mostram boa correlação entre os valores ecográficos e histopatológicos da espessura tumoral.

2. Detecção de recidiva local ou satelitose
Após a excisão do melanoma, a ultrassonografia de alta frequência pode identificar recidivas locais e nódulos satélites subclínicos, que podem passar despercebidos ao exame físico, principalmente em áreas de cicatriz cirúrgica ou em pacientes com pele fotodanificada.

3. Avaliação de linfonodos regionais
O exame ultrassonográfico linfonodal permite a detecção de metástases em linfonodos não palpáveis, especialmente quando associado ao Doppler colorido. Critérios como aumento do volume, perda da arquitetura habitual, ausência de hilo ecogênico e vascularização periférica são indicativos de possível infiltração metastática.

4. Monitoramento de metástases cutâneas e subcutâneas
A ultrassonografia é útil na identificação e monitoramento de implantes subcutâneos, que podem ocorrer ao longo do trajeto linfático ou em sítios distantes. O exame também permite acompanhar a resposta a terapias locais ou sistêmicas, de forma não invasiva.

5. Estudo de cicatrizes e reconstruções pós-operatórias
Em pacientes submetidos a reconstruções complexas ou enxertos, a ultrassonografia pode ajudar a distinguir entre alterações cicatriciais e recidivas neoplásicas, o que reduz a necessidade de biópsias desnecessárias.

Portanto, a ultrassonografia, quando bem indicada e executada com transdutores e técnica adequados, constitui uma ferramenta versátil e de alto valor na abordagem do melanoma, oferecendo suporte diagnóstico e prognóstico com impacto direto na conduta terapêutica.


Quais as limitações da ultrassonografia no diagnóstico dos tumores melanocíticos e em quais situações o exame deve ser complementado por outros métodos de imagem ou biópsia?
Apesar dos avanços tecnológicos e da crescente aplicação da ultrassonografia na dermatologia, especialmente com o uso de transdutores de alta frequência, esse método apresenta limitações importantes no diagnóstico dos tumores melanocíticos.

As suas principais limitações da ultrassonografia são:

– O nível de especificidade na diferenciação entre lesões benignas e malignas
Embora certos padrões ecográficos possam sugerir malignidade (como hipoecogenicidade, margens irregulares e vascularização intralesional), esses achados não são patognomônicos e podem ocorrer em nevos atípicos ou em tumores não melanocíticos.

– Dificuldade em avaliar lesões muito finas ou pigmentadas planas
As lesões melanocíticas in situ associadas a dano actínico intenso (a elastose solar é visualizada, à ultrassonografia, como uma faixa hipoecogênica que pode apresentar a mesma ecogenicidade tumoral) podem não ser detectadas adequadamente, mesmo com sondas de altíssima frequência.

– Interpretação dependente do operador e do equipamento
A acurácia diagnóstica está diretamente relacionada à experiência do examinador e à qualidade do aparelho utilizado. A falta de padronização dos critérios ecográficos também pode limitar a reprodutibilidade dos achados.

– Ausência de informações histopatológicas e moleculares
A ultrassonografia não permite avaliar mitoses, atipias citológicas, presença de ulceração ou envolvimento de estruturas vasculares/moleculares, informações fundamentais para o estadiamento preciso e prognóstico.

Apesar de útil na análise local e linfonodal superficial, a ultrassonografia não substitui exames como a tomografia computadorizada, a ressonância magnética ou a PET-CT na investigação de metástases viscerais ou acometimento ósseo.

Com relação à complementação com outros métodos diagnósticos, na presença de lesão melanocítica com características clínicas ou dermatoscópicas suspeitas é mandatória a realização biópsia excisional para diagnóstico histopatológico, independentemente do achado ultrassonográfico. Nos casos de melanomas com espessura estimada ≥1 mm, os pacientes podem se beneficiar da biópsia do linfonodo sentinela e exames de imagem sistêmica para estadiamento. Na suspeita de metástase não acessível à ultrassonografia, deve-se complementar com PET-CT, RM ou TC, conforme localização e quadro clínico.

Portanto, embora a ultrassonografia cutânea represente uma ferramenta valiosa e em constante expansão na dermatologia oncológica, seu uso deve ser integrado ao raciocínio clínico, e os casos suspeitos devem sempre ser confirmados por exame histopatológico, que permanece o padrão-ouro para o diagnóstico definitivo dos tumores melanocíticos.