A REVOLUAÇÃO DOS IMUNOBIOLÓGICOS
Os medicamentos imunobiológicos vêm se expandindo e causando uma verdadeira revolução no tratamento de diversas doenças crônicas. E de que maneira são utilizados atualmente na dermatologia e quais as novidades?
Produzidos a partir de células vivas modificadas geneticamente, em um processo biotecnológico, os medicamentos imunobiológicos (também conhecidos como biológicos ou biofármacos) têm proporcionado avanços nos tratamentos de diversos problemas de saúde, uma vez que agem seletivamente nas vias inflamatórias de algumas doenças crônicas. Além disso possuem outros benefícios, como maior eficácia e redução de efeitos adversos, ampliando o bem-estar dos pacientes. Mas apesar da movimentação atual em torno do tema, esses medicamentos não são novidade na medicina.
Avanços significativos ao longo do tempo
Em 1982 surgia a insulina recombinante humana, produzida através da cultura de bactérias geneticamente modificadas. Foi o primeiro medicamento biológico, cujo surgimento já representava um avanço para o tratamento do diabetes, com menos rejeição e efeitos colaterais.
Ainda segundo a doutora Ana Luisa Sampaio, coordenadora do Departamento de Medicina Interna da SBDRJ, os primeiros imunobiológicos anti-TNF alfa já estão no mercado há mais de vinte anos. O infliximabe e etanercepte foram aprovados pela agência Food and Drug Administration (FDA) em 1998 – o adalimumabe recebeu aprovação para uso pelo FDA, nos EUA, em 2002. Chegaram ao Brasil em 2005. Em seguida, em 2009, o ustequinumabe recebeu aprovação e, mais recentemente, os anti-interleucina 17 e 23. A dermatologista conta que, devido à dificuldade de conseguir estas medicações no passado, muitos médicos se sentiram desestimulados a conhecer seus mecanismos de ação e prescrevê-los.
“Era uma luta conseguir medicamentos via SUS ou judicialização, quando o paciente grave já havia feito todos os tratamentos disponíveis e falhado a eles. Em 2019, o SUS lançou o PCDT (Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas) de psoríase, disponibilizando medicamentos biológicos – anteriormente disponíveis apenas para pacientes com artrite psoriásica – para portadores de psoríase cutânea moderada a grave que tenham tido falha ou contraindicação aos medicamentos sistêmicos tradicionais. Em abril de 2021, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) atualizou o rol de procedimentos cobertos pelos planos de saúde, incorporando o tratamento da psoríase com imunobiológicos”.
Conversamos com a Dra. Ana Luísa Sampaio, Dermatologista,
Doutoranda pela UERJ e Departamento de Medicina Interna da SBDRJ, sobre alguns tópicos importantes dos imunobiológicos para a nossa especialidade e o que você não pode deixar de saber sobre este tema. Confira.
Rio Dermatológico: De que maneira os biológicos são utilizados atualmente na dermatologia e como vêm revolucionando o tratamento de doenças cutâneas?
Ana Luisa Sampaio: Existem inúmeros medicamentos imunobiológicos disponíveis atualmente. Especialidades como oncologia, hematologia e reumatologia já dominam e prescrevem este tipo de medicamento. O rituximabe, por exemplo, é um anticorpo monoclonal anti-linfócitos B CD20+, que trata linfomas, artrite reumatoide, lúpus e buloses autoimunes. Os medicamentos anti-TNF alfa atuam bloqueando esta citocina no organismo, sendo a primeira classe de medicamento imunobiológico eficaz no tratamento da psoríase. Existem várias moléculas de anti-TNF alfa: o infliximabe é um anticorpo monoclonal quimérico (humano-murino), o etanercepte uma proteína de fusão, o adalimumabe um anticorpo monoclonal humano, o certolizumabe é um anticorpo monoclonal peguilado, e por aí vai. Então, existem características químicas que levam a diferenças imunológicas entre cada um deles. Além de psoríase, eles podem ser armas no tratamento de doenças inflamatórias intestinais, artrites diversas, uveíte etc. Também existem medicamentos imunobiológicos para tratar dermatite atópica, urticária crônica espontânea e lúpus eritematoso, dentre outras doenças.
RD: Quais as novidades em tratamentos dermatológicos com imunobiológicos?
As novidades são os tratamentos mais seletivos na patogênese e mais eficazes no tratamento de diversas doenças, como por exemplo na psoríase. Outra classe de novos medicamentos (que não são imunobiológicos) são os inibidores da Janus Kinase (JAK), pequenas moléculas para uso oral que surgiram recentemente e começam a ser aprovadas para uso em dermatoses como dermatite atópica e alopecia areata. Esta será uma nova revolução na dermatologia, pois teremos que compreender como é a via de sinalização intracelular na produção de citocinas, seus mecanismos de ação e seus efeitos em várias doenças.
RD: Na sua opinião, por que os dermatologistas devem estar constantemente atualizados sobre este tema?
Atualmente não dá para deixar de saber que esta modalidade de tratamento existe, quais medicamentos e quais tipos de pacientes são elegíveis a estes tratamentos, nem que seja apenas para indicar o tratamento (mesmo que o profissional não deseje ou não se sinta à vontade para acompanhar o paciente). Não há mais motivo para que o paciente com doença grave – seja ela qual for – tenha sua qualidade de vida prejudicada quando existem opções eficazes e viáveis de tratamento.
Eu sou uma super estusiasta pelo tema, me sinto privilegiada por ter terminado minha residência em dermatologia em 2006 na UERJ, na época em que estavam surgindo os primeiros imunobiológicos anti-TNF alfa no Brasil. Pude ver os professores Alexandre Gripp e Luna Azulay desbravando fronteiras e iniciando seus primeiros pacientes. Depois, durante todo o tempo que estive no Ambulatório de Psoríase do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF – UFRJ), junto com a professora Sueli Carneiro (que é dermatologista e reumatologista), adquiri bastante experiência com pacientes graves e artrite psoriásica. Atualmente faço meu doutorado em Psoríase e Genética e sou preceptora do Ambulatório do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE -UERJ), junto com a Professora Luna Azulay.
Quer aprender mais sobre o tema?
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O programa engloba doenças que podem ser tratadas com estes medicamentos como psoríase, dermatite atópica, hidradenite, urticaria crônica e buloses.
Gratuito e exclusivo para associados SBD e residentes de serviços credenciados.