Matéria de capa – RD 53

Matéria de capa

O uso de filtros nas redes sociais e a obsessão pela beleza

Tudo começa como uma brincadeira inocente. Ao postar uma foto, a rede social nos oferece diferentes filtros que modificam a imagem, sendo possível deixar os olhos maiores, o nariz mais fino, a boca mais grossa e a pele iluminada, como se tivéssemos passado por uma harmonização facial. O problema é que essa aparente brincadeira tem se tornado uma obsessão nas redes – e principalmente fora delas – fazendo com que as pessoas persigam constantemente esse padrão de beleza inalcançável ao qual tentam se enquadrar, desencadeando até mesmo distúrbios de saúde, como depressão e ansiedade. Conversamos com colegas que atuam na área da cosmiatria, que compartilharam conosco suas opiniões:

“É uma realidade, infelizmente, perversa e devastadora para muitas pessoas. Devemos ser claros ao demonstrar nos nossos atos públicos e dentro das nossas clínicas que existem muitos interesses e inverdades nestes padrões, e que não é saudável buscá-los, pois muitas vezes eles são inatingíveis por serem irreais.”

O papel do dermatologista neste contexto
“Penso que o nosso objetivo é buscarmos através da ética, da empatia, da ciência e da sinceridade contribuir para a educação dos nossos pacientes sobre as suas expectativas, adequando as mesmas à realidade. Devemos também, como médicos, sempre procurar identificar comportamentos que possam significar algum sintoma de uma doença que precisa ser abordada por uma outra especialidade médica que cuide da saúde mental, como depressão e ansiedade. Devemos também evitar fomentar este tipo de comportamento ou a busca por resultados irreais através da divulgação do nosso trabalho, principalmente nas redes sociais.”

O que os médicos que atuam com estética podem fazer?
“Acredito que nosso papel é muito importante. Somos formadores de opinião. Por vezes, até mesmo considerados “padrões estéticos” para aqueles que nos assistem. Guiar nossos atos, nossas palavras e nossos exemplos pela premissa de uma busca saudável pela beleza natural, sem excessos, com expectativas realistas, talvez seja a base de tudo. Quando nós mostramos que muito desta beleza divulgada nas redes sociais não é real, ou pelo menos que é exagerada, firmamos um contraponto de pesos sobre o assunto e podemos auxiliar na melhor percepção e relação das pessoas com esta pressão.”

Minha experiência com a reversão de procedimentos
“A demanda é crescente. Os pacientes geralmente são oriundos de profissionais não médicos, de médicos não capacitados adequadamente ou até mesmo de colegas tecnicamente competentes, mas que abandonaram o bom senso estético e artístico nos seus procedimentos. Estas pessoas estão frequentemente precisando de cuidados e de um profissional capacitado para lidar com o seu problema. É fundamental respeitarmos todos os cuidados legais que esta situação pode exigir, mas penso que não podemos abandoná-los. Devemos estar capacitados a tratá-los da forma mais correta cientificamente e mais acolhedora humanamente. Além disso, não somos imunes a complicações e é um dever de todo profissional que executa uma técnica saber cuidar dos problemas inerentes a mesma. Tão importante quanto saber usar o ácido hialurônico é, atualmente, saber lidar com suas complicações e solucioná-las da melhor forma.”

“É preciso ter consciência de que esse comportamento passou de algo normal – pois o ser humano busca o belo, se sentir bem, isso é o natural. Ruim é quando isso se torna uma mania, uma obsessão, é quando um padrão apenas de beleza é apreciado. Então, acho que a primeira coisa é reforçar no jovem que a beleza existe sobre diversas formas, de vários ângulos. A beleza não pode estar condicionada apenas a números, como por exemplo a harmonização facial preconiza. Precisamos reforçar no comportamento do jovem a importância que eles têm que ter de se descobrir, de se entender, de outras formas que não apenas nessas referências.”

O que os médicos que atuam com estética podem fazer?
“Como dermatologistas, cirurgiões plásticos e cosmiatras, precisamos propagar uma relação entre saúde física, mental e beleza na promoção desse ciclo virtuoso. Eu, por exemplo, criei uma marca, a ‘Beleza integrada’, que é a beleza nas suas diversas formas: na arte de se comunicar, de se entender, de viver, por exemplo. Acho que é preciso desconstruir a beleza apenas como uma referência praticada por influenciadores, como uma educação, um reforço de autoestima, de bem-estar, de que podemos alcançar a beleza com novos padrões.”

“Não quero ficar igual a todo mundo!”
“Eu sou uma dermatologista que tem essa pegada mais natural, as pessoas já me procuram porque sabem que eu não sou uma injetora que vai fazer a pessoa ficar diferente. O meu trabalho, até com as pessoas públicas, mostra exatamente isso. A procura tem aumentado muito, além disso, na reversão tem sempre a procura com a seguinte pegada: ‘não quero de jeito nenhum fazer preenchimento, não quero harmonização, tenho medo do que as pessoas estão fazendo, não quero ficar igual a todo mundo’. Eu acho lindo o ‘não quero ficar igual a todo mundo’, esse refinamento da beleza precisa ser realmente amplamente discutido.”

“Eu acredito que hoje, mais do que nunca, além de estar tecnicamente habilitado para realizar os procedimentos estéticos, o médico tem que estar preparado para lidar com distúrbios de dissociação de autoimagem e expectativas irreais dos pacientes. A busca pelo padrão de beleza dominante não é um problema atual, já que a globalização trouxe, através do cinema, da televisão e mais recentemente da internet, o endeusamento de belezas muitas vezes únicas e inalcançáveis.”

O papel do dermatologista neste contexto
“O dermatologista deve conversar francamente com seus pacientes, modular expectativas, dizer o que conseguimos melhorar com as tecnologias disponíveis e o que só é possível através da manipulação de imagem digital. E mais do que isso, reforçar a importância da autoestima, do bem-estar e da aceitação da beleza natural de cada um, com propostas de melhora sem despersonalização da imagem, e assim potencializando a sua própria aceitação através da melhora da pele dentro das possibilidades do próprio paciente, num plano de tratamento individualizado.”

A ditadura da beleza
“Existe uma tendência da supervalorização da beleza pelos profissionais que lidam com estética, provavelmente pela pressão do mercado capitalista de consumo. Mas acho que é preciso discutir a ditadura da beleza. Não só falar de tratamentos possíveis e de que tudo pode ser melhorado, mas também de que muitas características tornam aquela pessoa única, contam uma história, têm sua beleza. Vender pacotes e tratamentos pode ser fácil numa era valorizada pelo consumo e pela divulgação maciça da imagem na internet. Mas o mais complexo e importante é saber valorizar o paciente, suas características e seus ideais, modulando as expectativas e valorizando também o mundo real. Com melhorias importantes possibilitadas pelas tecnologias, mas também com a valorização da saúde mental, do amor-próprio e do bem-estar.”

A importância do domínio técnico da hialuronidase na reversão de procedimentos
“Felizmente eu tenho muito pouca experiência com reversão de procedimentos, já que não me proponho a fazer transformações e sim valorizar detalhes do que é belo e individual no paciente. Mas é muito bom saber que podemos contar com a hialuronidase para reverter procedimentos com ácido hialurônico, atualmente o preenchedor mais usado. E isso também tranquiliza o paciente que tem medo de se submeter a tratamentos, mesmo que mínimos. Por isso, precisamos sempre ter em mente e em mãos o protocolo de aplicação dessa enzima para que, em casos de urgência como oclusão vascular, e mesmo em casos eletivos de reversão de tratamentos, possamos oferecer de prontidão a reversão de complicações e descontentamento do paciente. É importante, acima de tudo, conhecer muito bem a anatomia das áreas que o dermatologista se propõe a tratar, como a face, e também ter parceiros em exames de imagem, como o ultrassom, nas situações em que se demanda uma localização mais específica do produto na pele.”

Na Noruega, uma nova lei exige que influenciadores digitais informem em postagens pagas se as fotos sofreram alguma modificação, a fim de “reduzir a pressão nos mais jovens sobre a aparência de seus corpos”.

“Atitudes, como estas declarações sobre alterações de fotos, podem sim ajudar a separar a ficção da realidade” (Renato Soriani).

“Tudo o que é muito radical fica muito complicado de seguir à risca. Na minha opinião, fotos bonitas, com boa luz, favorecendo o ângulo não têm problema, até porque a gente sempre buscou colocar no porta-retrato a foto que melhor nos representasse. O que eu acho bem ruim nesses filtros é a transformação. Não acho ruim às vezes colocar uma luz mais bonita, uma brincadeira, mas ruim é transformar um nariz em mais fino, uma boca em mais grossa, como se estivesse harmonizada, mimetizando o procedimento. Se a lei se refere a isso, eu acho bem interessante. Agora, se for para falar de tudo o que foi corrigido eu, particularmente, acho que tem que ter uma ressalva para não cair em um descredenciamento da própria lei” (Juliana Neiva)

“Acho que, com os filtros das redes sociais, as pessoas estão cada vez mais cientes de que algumas belezas, peles perfeitas e corpos muito esculpidos são trabalho de edição computadorizada de imagem. Antigamente existiam técnicas de maquiagem e trabalhos de edição para cinema e fotografia que, muitas vezes, desconhecíamos por serem acessíveis apenas aos profissionais que trabalhavam com isso. Hoje, temos em nossos telefones aplicativos que transformam pele, cabelo, corpo e maquiagem de uma forma muito simples e acessível. Com isso, houve um aumento do senso crítico, de que peles muito perfeitas só mesmo editadas. Mas acho que essa lei na Noruega pode ajudar, sim, a desmitificar ainda mais essa lenda da perfeição. Pode ajudar quem não entende nada de tecnologias ou desconhece o poder da edição a perceber que muito do que é visto não é real, e sim aperfeiçoado digitalmente.” (Thales Bretas)

Um estudo publicado na JAMA Facial Plastic Surgery, em 2019, sugeriu que o uso de certas mídias sociais e aplicativos de edição
de fotos pode estar associado a uma maior aceitação da cirurgia estética.
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Efeito Zoom”: segundo a pesquisa anual da American Academy of Facial Plastic and Reconstructive Surgery (AAFPRS), divulgada
este ano, o número de adolescentes buscando a rinoplastia aumentou em relação a 2019, com 41% dos cirurgiões identificando este
fato como uma tendência crescente, juntamente com o desejo de ter uma aparência melhor nas videoconferências
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Uma pesquisa do Google Trends mostrou que em 2020 houve um aumento de até 4.800% nas buscas pela palavra “rinoplastia”.