O que há de mais atual sobre os iJAK na dermatologia
O uso dos inibidores de Janus quinase (iJAK) na dermatologia possibilitou novos horizontes terapêuticos e nos aproxima, cada vez mais, do futuro. Aliás, na mitologia romana Janus (ou Jano) é o nome de uma divindade com duas faces – uma representando o que virá pela frente e a outra o que passou – simbolizando a transição, o período de mudanças, de transformações e de novos começos. O mês “janeiro” recebeu este nome em referência ao deus Janus.
Mas voltando aos nossos iJAK, essa classe de medicamentos proporcionou diversas possibilidades de tratarmos várias doenças imunomediadas, dermatoses que antes possuíam poucas opções terapêuticas, com uma melhor compreensão de seu mecanismo de ação. Seus principais alvos dermatológicos – psoríase, vitiligo, alopecia areata e dermatite atópica – seguem sendo os personagens principais de diversos estudos controlados, mas cada vez mais surgem relatos do seu uso em outras doenças imunomediadas.
Pedimos ao nosso colega, Dr. Paulo Oldani, chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital Federal dos Servidores do Estado, para elaborar uma atualização rápida sobre os iJAK.
Benefícios dos iJAK
“Diferentemente dos medicamentos biológicos, que são moléculas produzidas por seres vivos, de uso parenteral, bloqueando apenas um alvo específico (citocina ou receptor) e agindo fora da célula, os iJAK são moléculas químicas administradas por via oral ou tópica que agem no meio intracelular e bloqueiam a via inflamatória inteira, alterando a produção de várias citocinas e, desta forma, possibilitando o seu uso em um número maior de doenças imunomediadas.
Eles agem bloqueando a ação de quatro enzimas intracelulares, responsáveis pela comunicação entre o meio extracelular e o núcleo das células, passando as informações necessárias para ativação ou inibição da resposta inflamatória. Essas enzimas agem em dupla (dímeros), existindo várias combinações possíveis, e os iJAK podem bloquear apenas uma ou todas, o que abre a possibilidade para a produção de diversas moléculas com ações diferentes.”
Regulação no Brasil
“Atualmente, no Brasil, os iJAK estão com aprovação regulatória apenas para dermatite atópica, psoríase e alopecia areata. Entretanto, os iJAK estão sendo estudados para várias outras doenças, entre elas vitiligo, lúpus eritematoso, líquen plano e, devido ao seu mecanismo de ação, sabemos que esses medicamentos poderão ter utilidade em outras dermatoses.”
O que há de mais atual no tratamento de psoríase, dermatite atópica e alopecia areata?
“Dentre as medicações aprovadas temos três opções para o tratamento da dermatite atópica – baricitinibe, upadacitinibe e abrocitinibe. Para psoríase, recentemente tivemos a aprovação do deucravacitinibe e, no ano passado, o baricitinibe foi aprovado também para o tratamento da alopecia areata.
Na dermatite atópica estas medicações mostram resultados surpreendentes, com melhora do prurido já nos primeiros dias de tratamento, melhorando muito a qualidade de vida dos pacientes.
Na psoríase, o deucravacitinibe apresenta resultados bons, com a opção de ser administrado por via oral.
Na alopecia areata, os iJAK têm um papel importantíssimo, já que até o momento as opções terapêuticas para esta doença são muito limitadas e, geralmente, imunossupressoras, com resultados pouco animadores. O baricitinibe apresenta estudos com resultados bons e outros iJAK já estão sendo estudados para o tratamento desta dermatose.
Existem alguns iJAK tópicos aprovados nos Estados Unidos, mas por enquanto ainda sem previsão de aprovação aqui no Brasil.”
Eventos adversos do tratamento com iJAK
“Os iJAK apresentam um bom perfil de segurança e os eventos adversos podem variar dependendo da classe (qual JAK inibe).
A acne é um evento frequente, comum a todos os iJAK, tão frequente que é chamado de “jakne”. Mas na maioria dos casos é facilmente controlada, sem necessidade de suspensão do tratamento.
Episódios de herpes zoster também são mais frequentes nos pacientes em uso de iJAK.
Importante saber que, antes do início dos iJAK, é necessária a investigação para tuberculose latente e seu tratamento. Ainda, como um aumento de eventos tromboembólicos foram relacionados com o uso de iJAK, é recomendado cuidado na sua utilização em paciente com risco elevado para tromboembolismo.”
ATUALIZAÇÃO: Após o fechamento desta edição, o imunobiológico ritlecitinibe foi aprovado pela Anvisa para o tratamento da alopecia areata em pacientes a partir dos 12 anos de idade. Esse é mais um avanço significativo para os pacientes com a doença.