Matéria destaque – Edição 59

Diante do sucesso – e do enredo – da série The Last of Us, um novo receio veio à tona: quais os riscos potenciais de uma pandemia como a da série causada por fungos?

Setembro de 2003. Um surto causado pela mutação de um fungo, transmitido de uma pessoa infectada para outra pela mordida, transforma o mundo em uma paisagem apocalíptica e humanos em zumbis velozes e nada amistosos…

Em nossa era pós-pandemia, em abril de 2023, o sucesso da série The Last of Us (em português, “Os últimos de nós”), cujo enredo é relatado no parágrafo acima, é mais que justificável. Ainda em recuperação do último surto de Covid-19 e curiosos sobre como será – e o que desencadeará – a próxima pandemia, assistir à história fez com que um novo receio viesse à tona: uma epidemia por fungo pode ser real? Vamos por partes.

O “fungo zumbi”

O vilão de The Last of Us é um fungo do gênero Cordyceps, fungos ascomicetos, que se desenvolvem em insetos e outros artrópodes.

Existem mais de 400 espécies de fungos do gênero Cordyceps e o que mais se aproxima do comportamento do fungo da série é o Ophiocordyceps unilateralis, gênero de fungos entomoparasitas. Mas a grande diferença é que ele controla insetos, não pessoas.

Encontrado principalmente em florestas tropicais – como as brasileiras – o O. unilateralis infecta uma espécie de formigas conhecidas como “carpinteiras”, alterando a neurobiologia desses insetos por meio de neurotoxinas e, literalmente, os transformando em “zumbis”.

E, afinal, o Cordyceps oferece perigo?

Segundo Andréa d’Ávila Freitas, tecnologista em Saúde Pública do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), o Cordyceps não é um fungo de importância como causador de doenças em seres humanos.

Inclusive, a especialista lembra que este fungo é muito utilizado na Medicina Tradicional Chinesa devido às suas diferentes propriedades (hepatoprotetoras, nefroprotetoras, antitumorais e anti-inflamatórias), muito úteis no tratamento de doenças.

E uma pandemia como a de The Last of Us, é possível?

“Existem outros fungos que são agentes causadores importantes de doenças nos seres humanos, que afetam o sistema nervoso central – como o Cryptococcus. Todavia, este não é um fungo de transmissão de uma pessoa para outra.

A maioria dos fungos que acometem seres humanos são adquiridos por via inalatória ou inoculação. Por exemplo, trabalhando com jardinagem ou pelo contato com um gato com esporotricose, nos contaminamos com o Sporothrix, mas não temos a capacidade de transmitir este fungo para outros seres humanos.

Por essa razão, uma epidemia com a proporção da série The Last of Us é pouco provável de acontecer. O que temos são fungos endêmicos”, explica Andréa.

Fungos endêmicos relevantes

Segundo a infectologista, no Rio de Janeiro há um grande número de casos de esporotricose, pela falta de controle adequado dessa zoonose nos felinos. A doença ganhou notoriedade em nosso país em 1998, quando teve início uma explosão de casos na Região Metropolitana.

Tendo o Sporothrix brasiliensis como responsável na maior parte dos casos, desde 2013 – quando passou a ser considerada um grave problema de saúde pública – a notificação da esporotricose se tornou compulsória para os atendimentos tanto em unidades públicas quanto em consultórios particulares.

Em 2019 foram efetuadas 1.693 notificações de casos suspeitos de esporotricose no estado do Rio, com 1.586 pacientes confirmados. Após esta data, com a pandemia de Covid-19 os números foram afetados, mas devido ao crescimento no número de casos, a situação é definida como hiperendemia.

Outro fungo para ficar de olho é o Candida auris, identificado pela primeira vez como causador de doença em humanos em 2009, no Japão. 

No Brasil, o C. auris foi responsável por um surto em um hospital de Recife, entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022.

Como apresenta resistência a medicamentos antifúngicos, é tolerante a temperaturas elevadas e capaz de sobreviver por longos períodos em condições adversas fora do organismo humano, o C. auris, que é um fungo emergente, pode causar graves problemas em pessoas imunodeprimidas, principalmente nos ambientes hospitalares.

Concluindo

Apesar de estarmos expostos aos fungos em nosso dia a dia, na maior parte dos casos é preciso estar com o sistema imunológico enfraquecido para ser contaminado mais facilmente.

Além disso, devido à forma de contágio, uma pandemia por fungos seria bem diferente da causada por um vírus – como o da Covid-19.

Ao menos por enquanto, a ficção e a realidade não se misturam e maratonar The Last of Us continua sendo um bom divertimento.

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