Dermatologia na atenção básica: resolutividade e limites
A dermatologia ocupa um espaço cada vez mais relevante na atenção primária à saúde (APS), tanto pela alta frequência das queixas quanto pelo potencial de resolução nesse nível de cuidado. Inserida como porta de entrada do sistema, a APS lida diariamente com uma grande diversidade de condições dermatológicas, exigindo preparo clínico, organização do fluxo assistencial e integração com níveis especializados.
Segundo a Dra. Ana Paula Frade, preceptora do Programa de Residência de Medicina de Família (PRMFC), “a atenção primária à saúde é o conjunto de ações que visa a promoção e prevenção da saúde, bem como tratamento, reabilitação e pela coordenação do cuidado. As queixas dermatológicas são muito frequentes, e por isso quando a dermatologia está inserida na APS, há um fortalecimento e ampliação da resolutividade da rede impactando diretamente na qualidade do cuidado.” Ela destaca ainda que, por esse papel central, “temos uma enorme variedade de queixas dermatológicas que refletem a prevalência dos agravos mais comuns.”
Alto potencial de resolutividade
Esse cenário reforça o potencial resolutivo da atenção básica. O Dr. Felipe Aguinaga, matriciador de dermatologia no Programa de Residência de Medicina de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde/RJ e preceptor do Instituto de Dermatologia Prof. Rubem David Azulay e do Hospital Universitário dos Servidores do Estado, lembra que “algo em torno de 70% das queixas dermatológicas poderiam ser resolvidas na atenção primária, com o preparo adequado.” Além disso, “problemas de pele correspondem a 5% a 20% das consultas na atenção primária, sendo a maioria de baixa complexidade e potencialmente manejáveis nesse nível.” Para ele, a capacitação impacta diretamente o sistema como um todo: “no fim, a capacitação melhora não só a resolutividade da atenção básica, mas também organiza melhor o fluxo dentro do sistema de saúde como um todo.”
O que pode ser resolvido na APS
Na prática, há uma ampla gama de condições que podem ser manejadas na APS. A Dra. Ana Paula destaca “doenças infecciosas como escabiose, molusco contagioso, verrugas, doenças exantemáticas da infância, hanseníase não complicada. Lesões benignas que geram preocupações ou dúvidas nos pacientes como ceratoses seborreicas, fibromas, dermatofibromas entre outras. E doenças inflamatórias frequentes como dermatite atópica leve, psoríase leve etc.”
Para ela, “o principal fator para o aumento da resolutividade é uma equipe devidamente treinada e preparada para a identificação das principais doenças”, além da “disponibilidade de medicamentos e de materiais cirúrgicos básicos como eletrocautério e instrumental”.
Principais desafios no dia a dia
Apesar desse potencial, os desafios ainda são significativos. Dr. Felipe aponta que “a formação em dermatologia na graduação costuma ser muito breve e pouco prática. Muitos profissionais se sentem pouco preparados para lidar com a ampla gama de doenças que se apresentam.” Ele ressalta que as dificuldades começam desde “a realização do exame dermatológico e o reconhecimento das lesões até a organização do raciocínio clínico e a formulação de hipóteses diagnósticas.”
Soma-se a isso o contexto assistencial: “o alto volume de atendimentos, muitas vezes em consultas com múltiplas queixas e tempo curto, acaba fazendo com que as questões dermatológicas nem sempre recebam a atenção necessária”, o que contribui para um número de encaminhamentos maior do que o necessário.
Na mesma linha, a Dra. Ana Paula reforça que “a formação muito variável dos médicos da ponta é o principal desafio. Vemos na prática muitas lacunas de conhecimento básico em dermatologia e isso acaba refletindo na prática.” Ela também chama atenção para limitações estruturais: “muitas clínicas não possuem acesso aos materiais básicos cirúrgicos e até mesmo exames simples como micológico direto.”
Integração com a dermatologia especializada
Diante disso, a integração com a dermatologia especializada se torna estratégica. Para o Dr. Felipe, “estratégias como o matriciamento e o suporte de especialistas por teledermatologia ampliam a segurança dos profissionais, qualificam o cuidado e favorecem uma condução mais resolutiva dos casos.”
Essa articulação permite “reduzir encaminhamentos desnecessários” e “agilizar a identificação de situações que realmente precisam de avaliação especializada”, contribuindo para diagnósticos mais precoces, especialmente em condições mais graves. Além disso, “o contato mais próximo entre atenção básica e especialista acaba funcionando também como uma ferramenta de aprendizado contínuo”.
Até onde vai a atenção básica?
Ainda assim, reconhecer os limites da atenção básica é fundamental. A Dra. Ana Paula destaca que “não existem diretrizes bem estabelecidas para os limites de atuação da APS, entendemos que o que prevalece é o bom senso e o conhecimento sobre a estrutura e complexidade de cada local.”
De modo geral, “doenças raras devem ser encaminhadas”, assim como “quadros de dermatite atópica e psoríase extensos”, “quadros localizados, mas de difícil controle como psoríase palmo plantar e de couro cabeludo”, “tumores ou lesões benignas cujo tratamento cirúrgico requer maior estrutura” e “doenças que podem ser até de fácil diagnóstico, mas que seu manejo requer experiência como alopecia areata em placas.”
Quando a APS precisa ir além
Ela também chama atenção para contextos em que, mesmo diante da indicação de encaminhamento, a APS assume o cuidado: “situações difíceis, em que existe a necessidade de encaminhamento, mas por alguma questão especial do usuário como por exemplo, dificuldade de mobilidade, situação de rua, baixa adesão, o cuidado acaba sendo feito pelos médicos da própria UBS.”
Para a especialista, esses casos “reforçam a importância da APS fortalecida para rede.”
Assim, a dermatologia na atenção básica se mostra como um campo de grande impacto assistencial, com alta capacidade de resolução quando há capacitação, estrutura e integração. Ao mesmo tempo, exige reconhecimento claro de seus limites, garantindo que os pacientes tenham acesso oportuno ao cuidado especializado quando necessário.