Dermatologia e pele negra: da prática clínica à inovação científica

Dermatologia e pele negra: da prática clínica à inovação científica

 

Nos últimos anos, o cuidado com a pele negra tem ganhado mais espaço na dermatologia brasileira. A combinação de maior interesse científico, eventos especializados e a criação de departamentos dedicados ao tema tem impulsionado uma mudança necessária na formação médica e no atendimento clínico.

Esse movimento se torna ainda mais relevante quando consideramos que a população negra em nosso país tem crescido significativamente, com um aumento de 42,3% entre 2010 e 2022, de acordo com dados do IBGE. Hoje, os dermatologistas reconhecem a urgência de estudar as especificidades da pele negra — suas características, necessidades, doenças prevalentes e respostas a procedimentos e tecnologias. E, embora muitos avanços estejam em curso, especialistas destacam que ainda há muito a ser feito para garantir um cuidado realmente inclusivo, baseado em evidências e com acesso equitativo.

Conversamos com dois nomes fundamentais nesse movimento, os Doutores Katleen da Cruz Conceição e Cauê Cedar, ambos dermatologistas e preceptores do Ambulatório de Pele Negra da Santa Casa e do HUPE/UERJ, respectivamente, que compartilharam sua visão sobre os avanços, desafios e a importância de ampliar o acesso e o cuidado especializado para essa população.

A evolução científica e os desafios do cuidado com a pele negra

Entrevista — Dr. Cauê Cedar

RioDermatológico: Como você enxerga a evolução da pesquisa científica voltada especificamente para a pele negra nos últimos anos?

“Temos caminhado bastante, mas ainda falta muito, principalmente dentro da realidade brasileira. As nossas principais referências ainda são americanas e, considerando que a população dos EUA tem cerca de 13% de afro-americanos, quando trazemos isso para o Brasil — onde 56% se autodeclaram pretos ou pardos — percebemos uma realidade muito mais miscigenada e ainda pouco estudada.
O carro-chefe das pesquisas em dermocosméticos voltados à população de pele negra foi — e continua sendo — o protetor solar com cor. A partir das demandas específicas identificadas, começaram também a desenvolver produtos para cabelo negro, reconhecendo um mercado grande e com importante potencial financeiro.
Mesmo assim, nossa formação médica ainda carece de literatura, referências e material visual sobre pele negra. Ou seja, avançamos, mas ainda temos muito a caminhar, especialmente considerando o tamanho e a diversidade do país.”

 

RD: Quais mitos ou preconceitos ainda precisam ser quebrados quando falamos sobre pele negra e saúde dermatológica?

Primeiro, o acesso: precisamos viabilizar o acesso das pessoas aos especialistas, aos dermatologistas, e garantir que a população negra chegue aos médicos — especialmente àqueles com formação para tratar suas demandas específicas com empatia e sensibilidade.
Segundo, falando especificamente sobre a pele, existe o mito de que a pele negra é mais resistente, o que gera diversos agravos em saúde. Quando se acredita que ela é mais resistente, imagina-se que leva mais tempo para desenvolver doenças ou que não desenvolve, e isso acaba veiculando uma informação errada.

Terceiro, em relação à fotoproteção, persiste a ideia de que pessoas negras não precisam de protetor solar.
Quarto, o mito de que todo creme ou tecnologia pode ser indicada para qualquer pele — o que não corresponde à realidade.
Então, nesse sentido, a gente precisa trabalhar bastante a educação em saúde com a nossa população.

 

RD: O acesso da população negra a tratamentos dermatológicos de qualidade tem melhorado? O que ainda precisa mudar nesse sentido?

Tem melhorado, mas a passos lentos. Precisamos veicular mais informação de qualidade. Hoje vemos um movimento controverso na internet e nas redes sociais, onde qualquer pessoa opina sobre qualquer assunto, o que acaba disseminando muita desinformação.
Segundo, muitos tratamentos e tecnologias têm custo elevado. Historicamente, a população negra teve acesso restrito a recursos financeiros e, consequentemente, enfrenta mais dificuldade para acessar cuidados em saúde.

Terceiro, precisamos de políticas públicas que realmente ampliem o acesso da população aos especialistas, garantindo diagnósticos mais rápidos e corretos, além do acesso efetivo ao tratamento.

Além disso, precisamos de um plano que estruture políticas públicas de saúde — não apenas para a população negra, mas, considerando o foco da conversa, com um olhar mais cuidadoso para um grupo historicamente maltratado, subjugado e com pouca oferta de informação.

RD: Que mensagem você deixaria para os jovens dermatologistas que desejam se aprofundar no cuidado da pele negra?
Quero deixar a mensagem de que, comigo e com a doutora Katleen, eles têm dois grandes parceiros, dispostos a realmente contribuir para mudar a realidade do país nesse sentido.

Formação, tecnologia e representatividade

Entrevista — Dra. Katleen da Cruz Conceição

RioDermatológico: Quais são os principais desafios que ainda encontramos no cuidado com a pele negra no Brasil?

O principal desafio no cuidado com a pele negra é reconhecer que existem diferenças importantes entre a pele negra e a pele branca e, sobretudo, que o médico precisa identificar essas particularidades e buscar conhecimento para oferecer o melhor atendimento a essa população. Felizmente, a Sociedade Brasileira de Dermatologia vem avançando nesse trabalho, especialmente com a criação do Departamento de Pele Étnica, pela Regional do Rio de Janeiro (SBDRJ). Então, acredito que o ponto mais importante é justamente esse: reconhecer as diferenças entre a pele negra e a pele branca.

RD: Os dermatologistas estão sendo preparados para utilizar aparelhos e tecnologias de forma segura em pacientes com pele negra?

Eu acredito que ainda não. Infelizmente, muitos dermatologistas ainda estão habituados a estudar e focar predominantemente na pele branca, quando sabemos que até 2036 a população brasileira será majoritariamente miscigenada. Por isso, é essencial desenvolver um olhar específico para essa população, que tende a manchar mais e possui maior quantidade de melanina.

Acredito que muitas tecnologias começaram a ser aplicadas a partir do trabalho que desenvolvo junto ao Grupo Paula Belotti. Hoje, já vemos tratamentos pensados para fototipos 3 e 4, mas ainda falta avançar quando se trata dos fototipos 5 e 6, que correspondem à pele negra.

 

RD: Comente sobre a importância do Simpósio de Pele Negra e da criação do Departamento de Pele Étnica, ambos da SBDRJ.

A segunda edição do Simpósio de Pele Negra, realizado pela SBDRJ, ocorreu no Instituto Professor Rubem Davi Azulay, da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, com a participação de vários dermatologistas que foram meus fellows em pele negra e que apresentaram as particularidades desse fototipo, especialmente em comparação com a pele branca, além de abordar temas como alopecias.

O Departamento de Pele Étnica surgiu a convite da doutora Regina Schechtman, presidente da SBDRJ, com foco em estudos, formação e educação — tanto da população quanto dos dermatologistas da SBD. Nosso objetivo é implementar cursos e aulas que aprofundem, de fato, o estudo dessa população.

 

RD: Além do conhecimento técnico, qual é a importância do preparo cultural e social do médico?

Eu acredito que, além do conhecimento técnico, o preparo cultural é fundamental. Todo médico precisa desenvolver empatia pela população negra, entendendo que é um grupo historicamente com menos acesso e pouca representação nos estudos. Todo médico deveria estudar pele negra, indígena e asiática — mas, sobretudo, a pele negra e a indígena, que são as mais sub-representadas no contexto nacional. Por isso, é essencial que a classe médica desenvolva um olhar atento e empático para essas populações.


Um futuro mais inclusivo para a dermatologia

A pauta da pele negra já não cabe mais à margem da dermatologia. Com a atuação de especialistas engajados, o crescimento de eventos científicos e a criação do primeiro Departamento de Pele Étnica do Brasil — iniciativa pioneira da SBDRJ — abre-se um caminho sólido para ampliar o conhecimento, aperfeiçoar tecnologias, combater mitos e formar profissionais mais preparados. Afinal, um país de maioria negra e profundamente miscigenado – como o Brasil – demanda uma dermatologia que reflita sua diversidade.