Coluna Ethos
Redução do diagnóstico de hanseníase durante a pandemia: mito ou verdade?
Por Heitor Gonçalves
Dermatologista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia
Doutor em Farmacologia
Vice-presidente da SBD
A redução no número de casos de hanseníase, que ocorreu nestes dois anos de pandemia – de em torno de 27 mil para 17 mil em 2020 e até 15 mil em 2021 – é um dado que, na verdade, deve ser considerado com muito cuidado, pois está longe de significar uma redução real. Isso se deve, fundamentalmente, à ausência/ diminuição do diagnóstico, por uma redução do acesso aos serviços de saúde, seja porque o paciente não pôde ou não quis sair de casa, seja pela falta de condições de transportes – financeiras ou mesmo de transportes reais – e também pela dificuldade de acesso a esses serviços de saúde, cujas portas não estiveram tão abertas durante o período da pandemia.
Então, seguramente essa é a causa real da diminuição no número de casos de hanseníase, e isso implica em uma preocupação muito maior: primeiro, teremos um aumento significativo por demanda reprimida de procura aos serviços de saúde, que devem se equipar para esse aumento. Segundo, esses casos que estão sem diagnóstico, ao menos a metade deles, devem estar transmitindo a doença, potencializando ainda mais o número de novos casos, o que deve ser um cuidado permanente dos serviços de vigilância epidemiológica e controle da hanseníase.
E o que precisamos fazer para retirar o Brasil do 2º lugar mundial em número de casos?
É importante considerarmos a capacidade resolutiva dos serviços de saúde. É fundamental que tenhamos a assistência médica, de enfermagem, fisioterapia, terapia ocupacional, enfim, para possibilitar o acesso ao diagnóstico precoce e, assim, viabilizar o tratamento rápido, capaz de reduzir a transmissão da doença.
No entanto, essa medida está longe de significar a ação fundamental e única para retirar o Brasil dessa condição. Há que se considerar as ações de educação em saúde, de divulgação sobre os aspectos para o diagnóstico precoce da doença perante a população como um todo, para que esta replique as informações para suas comunidades, mas fundamentalmente também a divulgação por parte das mídias – da imprensa falada, escrita, televisionada – e, mais importante ainda, a medida a ser tomada pelas políticas públicas, que não são apenas sanitárias como falamos anteriormente, mas através de ações de promoção à saúde. Não dá para controlarmos e eliminarmos a hanseníase se não melhorarmos as condições de habitação e de transporte – que geram aglomerações e transmissões – e se não melhorarmos as condições de educação da população para conhecer a doença, saber seus direitos de assistência, ou seja, ações de promoção à saúde, em que se garanta a cidadania. Sem isso, jamais conseguiremos retirar o Brasil da 2ª colocação em número de casos de hanseníase.
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