Coluna Ethos
Dermatologistas no atendimento às pessoas trans
Por Betina Stefanello – Professora no Instituto David Azulay
Durante muito tempo, o dermatologista teve um papel secundário na equipe multidisciplinar responsável pelo tratamento de transgêneros. Mas hoje, além de acompanhar e tratar os eventos adversos na pele causados pela hormonioterapia, também conseguimos realizar procedimentos estéticos minimamente invasivos, que ajudam a lidar com alguns estigmas da transição. A falta de informação, a dificuldade de acesso a serviços de saúde e o custo dos procedimentos ainda são uma grande barreira. Do outro lado, equipes ainda não estão treinadas para receber pacientes trans ou não se sentem aptas para realizar tais procedimentos.
Quando me perguntam o que o dermatologista precisa saber para lidar com pacientes trans eu sempre respondo que precisa saber tratar o outro com respeito e empatia, pois antes de serem trans são seres humanos. Muitos deles estão fragilizados, pois sofreram ou sofrem transfobia, com agressões físicas e psicológicas dos mais diferentes tipos. Parece besteira, mas se eu pudesse deixar aqui uma mensagem para meus amigos dermatologistas eu diria que o mais importante é perguntar por qual nome e pronome a pessoa gostaria de ser chamada. Respeitar os pronomes ele/dele e ela/dela é tão importante quanto chamar pelo nome social. Não custa nada para a gente e faz um bem enorme para a pessoa.
Os problemas dermatológicos mais comuns na população trans são os mesmos da população não trans, mas as questões cutâneas inerentes aos pacientes trans devido à hormonioterapia são acne, queda de cabelo, melasma, etc.
As mulheres trans buscam a depilação facial a laser como primeiro procedimento a ser realizado. O que é evidente é que o estrogênio, embora eficaz na remoção dos pelos docorpo, não tem praticamente nenhuma ação sobre os pelos da barba. No caso de homens trans, a testosterona pode
masculinizar adequadamente um rosto, mas sem o uso de binders ou obtenção de uma mastectomia pode ser desafiador se apresentar como um homem perante a sociedade.
Quando buscamos a masculinização da face, injetamos principalmente no terço inferior, demarcando a região de mandíbula, pincipalmente o ângulo para a obtenção de um rosto quadrado e na região de mento para o seu alargamento. No mento, inclusive, pode-se optar pela técnica de 2 bólus com agulha quando o intuito é recriar um mento com covinha central. Podemos recriar uma glabela mais proeminente e uma sobrancelha retificada com preenchedor.
Pensando em feminilização, o preenchimento facial na região malar e zigomático poderiam fazer as bochechas ficarem mais altas e proeminentes e, na região de mento, poderia deixá-lo mais pontudo e assim fazer com que o rosto tenha um formato de coração. A quantidade de produto vai
depender da necessidade de cada rosto. Além da toxina botulínica, também podemos usar o preenchimento facial para arquear as sobrancelhas. Lábios carnudos e com contornos bem definidos e nariz delicado são características bem femininas e também podem ser obtidas com preenchimento.