A flacidez cutânea facial de início rápido​

A flacidez cutânea facial de início rápido​


Por Paulo Antônio Notaroberto
CRM: 577850-RJ / RQE Nº: 17972
Médico dermatologista, Coordenador do Departamento de Cosmiatria da SBDRJ e Professor de Cosmiatria do IDPRDA
Associado SBD, SBCD e EADV

A flacidez cutânea é uma consequência inevitável do envelhecimento intrínseco e, principalmente, da interação da pele com as nóxias exógenas, como a radiação ultravioleta. Trata-se de um processo crônico, de evolução lenta, e que pode ser prevenido com sucesso a partir de cuidados diários e procedimentos minimamente invasivos, como a aplicação de bioestimuladores. Entretanto, hoje, enfrentamos no consultório um perfil de flacidez de manejo mais difícil, que é decorrente da rápida perda ponderal. Dentre as causas para a rápida perda de peso nos dias de hoje, destaca-se o uso crescente da semaglutida e derivados. Do início de 2020 até o final de 2022, o volume de prescrição desta classe de produtos teve um aumento de 300%.

O exato mecanismo de ação da semaglutida parece não estar plenamente esclarecido. Sabe-se que a semaglutida é um agonista do receptor GLP-1 (glucagon like peptide), estimulando a liberação de insulina e reduzindo o glucagon, promovendo o controle da glicemia sem levar à hipoglicemia, em pacientes com diabetes do tipo II. A ligação da semaglutida a receptores GLP-1 presentes no trato gastrointestinal e no hipotálamo leva à diminuição da mobilidade gástrica e sensação de saciedade com consequente redução da ingesta calórica e aumento do intervalo entre as refeições. Dois pontos importantes em que não há consenso se referem a possível maior efeito de redução de gordura na face e que 20 a 50% da perda ponderal parece ser decorrente da perda de massa muscular.

A rápida perda ponderal associada ao “esvaziamento da face” e provável redução da sustentação muscular levam a alterações clínicas compatíveis com uma face envelhecida. Há perda de volume e magreza com aspecto esquelético particularmente notadas nas regiões das têmporas, malares, periorbitais e cervical. Os sulcos se tornam mais pronunciados e há comprometimento do contorno facial. As estruturas faciais, como boca e mento, perdem o equilíbrio estético com o restante da face. O comprometimento não é apenas perceptível ao exame clínico: há redução de elastina, colágeno e nutrientes essenciais.

A abordagem inicial deste paciente deve incluir o perfeito entendimento da necessidade do uso desta medicação. O acompanhamento do uso de da semaglutida deve ser feito por especialista, habitualmente endocrinologista. As manifestações clínicas são decorrentes da perda de volume e da flacidez cutânea e, consequentemente, a abordagem deve ser feita visando aumentar a firmeza e repor a perda volumétrica. O aumento da firmeza pode incluir a associação de bioestimuladores (ácido polilático, hidroxiapatita de cálcio, por exemplo) e tecnologias. Dentre as tecnologias voltadas para aumentar a firmeza cutânea estão os lasers com afinidade pela água (não ablativos e ablativos, guardando as devidas restrições quanto ao fototipo e época do ano, por exemplo), radiofrequência, ultrassom microfocado e radiofrequência microagulhada. A intervenção cirúrgica com lifting facial também é uma opção no manejo da flacidez facial decorrente do uso da semaglutida. A reposição de volume pode ser conduzida com a aplicação de ácido hialurônico.

Os agonistas do receptor GLP-1 (semaglutida) usados ​​para perda ponderal, com ou sem acompanhamento médico, ganharam popularidade, fortemente influenciados pelas mídias sociais, celebridades e notícias. O dermatologista deve saber se seus pacientes estão usando agonistas do receptor GLP-1, entender os riscos e benefícios, e saber conduzir os efeitos adversos dermatológicos desta classe de produtos.