Psoríase infantil: quando considerar a terapia-alvo?
A psoríase é uma doença inflamatória crônica que também pode acometer crianças, impactando significativamente a qualidade de vida. Para determinar a gravidade da doença, são utilizados alguns índices padronizados: o BSA (área de superfície corporal afetada), o PASI (índice de área e gravidade da psoríase) e o CDLQI (questionário de qualidade de vida infantil).
De acordo com a Dra. Mariana Gusmão, dermatologista e preceptora do Ambulatório de Dermatologia Pediátrica da Santa Casa do Rio de Janeiro, “se um dos três índices for menor do que 10, considera-se psoríase leve. Se for maior ou igual a 10, trata-se de psoríase moderada a grave, conforme o PCDT — o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da psoríase”.
Além dos escores, também são consideradas psoríase moderada a grave o acometimento de algumas áreas especiais da pele. A psoríase ungueal (nas unhas), quando provoca descolamento ou distrofia em duas ou mais unhas, já é classificada como grave. O mesmo vale para as formas palmo-plantar, genital, em dobras, na face ou no couro cabeludo, quando resistentes ao tratamento tópico por mais de três meses.
O caminho do tratamento
Segundo o PCDT, há um fluxograma terapêutico que deve ser seguido para casos moderados a graves. Após o tratamento tópico, a primeira linha é a fototerapia. Se não houver resposta, parte-se para medicamentos como metotrexato, acitretina ou ciclosporina. “Somente após a falha dessas opções é que está indicado o uso da terapia-alvo, que, no sistema público de saúde, é representada pelo etanercepte”, explica a especialista.
A eficácia do tratamento é avaliada pelo índice PASI, calculado antes e durante o uso do medicamento. As metas terapêuticas são classificadas conforme o grau de melhora: PASI 75 (redução de 75% da gravidade inicial), PASI 90 e PASI 100. Este último representa a limpeza completa das lesões. Quando não há avanço satisfatório após o tempo mínimo de uso de cada fármaco, considera-se a troca de tratamento.
Terapias-alvo disponíveis
As opções de terapia-alvo variam conforme o acesso. No sistema público, apenas o etanercepte (anti-TNF alfa) está disponível. Na saúde suplementar, o médico pode escolher entre o etanercepte, o secuquinumabe (anti-interleucina 17A) e o ustequinumabe (anti-interleucina 12/23).
O etanercepte tem resposta mais lenta e perda gradual de eficácia ao longo do tempo, mas seu perfil de segurança é bem estabelecido. “É indicado em casos sem urgência de melhora rápida e quando não há necessidade de pele totalmente limpa”, observa Dra. Mariana. Ele é útil em pacientes com doença inflamatória intestinal ou artrite periférica associada e tem aplicação semanal. Seus principais efeitos colaterais são infecções e tuberculose.
O secuquinumabe, por sua vez, apresenta início de ação rápido e alta eficácia, bloqueando diretamente a citocina-chave da psoríase. É especialmente indicado para áreas difíceis, como couro cabeludo, unhas e palmas/planta dos pés, ou em pacientes com grande impacto na qualidade de vida que necessitam de melhora imediata. Ele atinge os melhores resultados de PASI (inclusive PASI 90 e 100), mas é contraindicado em pacientes com doença inflamatória intestinal. Pode causar infecções, candidíase e foliculite, e sua posologia é mensal.
Já o ustequinumabe tem resposta um pouco mais lenta, porém sustentada e de longo prazo. “Ele alcança bons índices de PASI 75 e 90, em porcentagem superior ao etanercepte e um pouco inferior ao secuquinumabe”, explica a médica. É indicado para casos menos agressivos, em que se pode esperar uma resposta gradual. A aplicação é trimestral (a cada 12 semanas), o que torna o tratamento mais cômodo, e os efeitos colaterais são raros, limitando-se a infecções leves.
A escolha entre as opções deve considerar a posologia, doenças associadas, custo e acessibilidade, necessidade de resposta rápida e o conhecimento do médico sobre o fármaco.
Um novo paradigma no tratamento da psoríase
Antes da introdução das terapias-alvo, os pacientes com psoríase moderada a grave eram tratados em rodízio: utilizava-se um medicamento por seis meses, depois outro, sem necessariamente alcançar melhora satisfatória.
“As terapias-alvo vieram para mudar esse cenário”, enfatiza a dermatologista. Esses medicamentos permitem não apenas o controle da doença, mas também a limpeza completa da pele (PASI 100), algo antes inatingível com as terapias tradicionais.
Os imunobiológicos atuam de forma específica, bloqueando as interleucinas ou vias inflamatórias diretamente envolvidas na fisiopatologia da psoríase (vias Th1 e Th17). Diferentemente das terapias antigas, que reduzem a imunidade de forma ampla, os novos agentes são imunomoduladores seletivos, oferecendo mais segurança, menos efeitos colaterais e posologia mais cômoda.