Matéria de capa – RD 57

“Chip da beleza”: mais uma tendência da internet que causa riscos à saúde

Ganhando cada vez mais adeptas em busca de um corpo definido, principalmente com a chegada do verão, o “chip” pode causar mais problemas que benefícios

Um implante hormonal do tamanho de um palito que promete um verdadeiro “pacote de benefícios” (emagrecimento, músculos definidos, aumento da disposição física e da libido), vem sendo idolatrado por influenciadoras digitais.

Estamos falando do “chip da beleza”, mais uma tendência da internet que, apesar de não ser novidade, tem ganhado cada vez mais adeptas em busca de um corpo definido –principalmente com a chegada do verão.

 

Mas o que é o “chip da beleza”?

Segundo o Dr. Marco Rocha, dermatologista colaborador do Ambulatório de Cosmiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os conhecidos “chips da beleza” são implantes hormonais que normalmente combinam 1 a 3 tipos de hormônios.

“Geralmente incluem a gestrinona, hormônio esteroide do tipo progestina, derivado da 19-Nortestosterona, ou inclui também a própria testosterona ou, algumas vezes, derivados estrogênicos também”, explica.

De acordo com o especialista, o mais comum para a maior parte destes implantes é conter gestrinona ou gestrinona com testosterona.

 

Quais os riscos à saúde?

“Estamos vendo um aumento avassalador do uso desses implantes no Brasil e os efeitos colaterais mais encontrados por nós, dermatologistas, dizem respeito aos efeitos ativados pelos hormônios androgênicos – como acne, aumento da oleosidade, dilatação dos poros, afinamento dos cabelos, aumento de pelos pelo corpo, e muitas vezes também notamos alteração da distribuição de músculo (padrão de musculatura mais masculina) e mudança no timbre da voz”, explica Dr. Marco.

Alguns especialistas dizem ainda que o uso desses implantes pode causar aumento da mandíbula, queda de cabelo, agravamento do risco de trombose, embolia e aumento do risco cardíaco.

 

Falta de estudos e de recomendações

Como explica Dr. Marco, a gestrinona existe há muito tempo, desde o fim da década de 70, e seu uso foi aprovado apenas para o tratamento da endometriose por via oral.

“Não existe nenhuma recomendação do uso de gestrinona para o tratamento da endometriose por meio de implantes.”

A ideia do “chip da beleza”, que não é aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é melhorar a performance física e estética das mulheres, mas essa indicação não encontra recomendação nem da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) nem da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

Sobre isso, Dr. Marco destaca alguns pontos importantes:

 

  • Essas substâncias não foram estudadas para que este seja o fim de indicação de seu uso;

 

  • A maneira utilizada é personalizada e sem bula, fazendo com que os pacientes não tenham ideia de seus efeitos colaterais ou da concentração de cada um desses hormônios dentro dos implantes;

 

  • A SBEM não recomenda, de modo formal, o uso de testosterona para mulheres na fase pré-menopausa, com transtorno de desejo sexual hipoativo, e há muitos pacientes utilizando com este fim, também em uma idade anterior à menopausa.

Segundo o dermatologista, por não existirem informações específicas de dose contida em cada um desses implantes, os pacientes ficam completamente “cegos” em relação ao que está sendo colocado dentro de seus corpos e por quanto tempo o dispositivo atuará.

Ele destaca ainda a própria resolução da SBEM, de novembro de 2021, que rechaçou veementemente o uso de anabolizantes para fins estéticos e aumento de desempenho físico, e ainda solicitou às autoridades regulatórias que dificultem a prescrição – principalmente da gestrinona – para este fim (veja aqui a resolução)

 

E quais desafios são deixados para os dermatologistas?

“Aos dermatologistas caberá o cuidado e o controle das manifestações induzidas por esses hormônios, que muitas vezes, por ser um implante colocado no subcutâneo, deverá ser removido. Quando isso não é possível, essas manifestações dermatológicas podem ser difíceis de serem resolvidas completamente, uma vez que não temos nenhuma informação da quantidade que estamos tentando contrabalancear com nossos tratamentos”, comenta Dr. Marco.

O dermatologista enfatiza que todas essas informações servem como um alerta.

“A ideia principal que fica é de uso de hormônios anabolizantes sem controle, sem orientação, sem bula, sem dosagem específica, com fim puramente estético, sem que os devidos riscos sejam discutidos com a paciente.”

De acordo com o Ministério da Saúde, a monkeypox deve ser suspeitada em indivíduos de qualquer idade que apresentem início súbito de lesão em mucosas e/ou erupção cutânea aguda sugestiva de monkeypox, única ou múltipla, em qualquer parte do corpo (incluindo região genital/perianal, oral), e/ou proctite (por exemplo, dor anorretal, sangramento), e/ou edema peniano, podendo estar associada a outros sinais e sintomas. As lesões podem ser generalizadas ou localizadas (mais comuns). Alguns pacientes manifestam sintomas prodrômicos, antes do surgimento das lesões cutâneas, como febre, cefaleia, mialgia, mas não é regra. As erupções cutâneas sugestivas de monkeypox são profundas e bem circunscritas, muitas vezes com umbilicação central e progressão da lesão através de estágios sequenciais específicos – máculas, pápulas, vesículas, pústulas e crostas.

De 6 a 16 dias, podendo chegar a 21 dias.

A transmissão entre humanos ocorre principalmente por meio de contato pessoal com lesões de pele ou fluidos corporais de uma pessoa infectada ou objetos recentemente contaminados, como toalhas e roupas de cama. A transmissão por meio de gotículas geralmente requer contato mais próximo entre o paciente infectado e outras pessoas, o que torna trabalhadores da saúde, familiares e parceiros íntimos pessoas com maior risco de infecção. Uma pessoa pode transmitir a doença desde o momento em que os sintomas começam até a erupção ter cicatrizado completamente e uma nova camada de pele se forme. Adicionalmente, mulheres grávidas podem transmitir o vírus para o feto através da placenta. A doença geralmente evolui de forma benigna e os sinais e sintomas duram de 2 a 4 semanas.

A manifestação cutânea típica é do tipo papulovesicular, precedido ou não de febre de início súbito e de linfadenopatia (inchaço dos gânglios). Outros sintomas incluem dor de cabeça, dores musculares, dores nas costas, calafrios e exaustão. Os casos recentemente detectados acometem homens que fazem sexo com homens (HSH) em mais de 90% das vezes e apresentam uma preponderância de lesões nas áreas genital e anal e acometimento de mucosas (oral, retal e uretral). As erupções podem acometer regiões como face, boca, tronco, mãos, pés ou qualquer outra parte do corpo, incluindo as regiões genital e anal. Na pele podem aparecer lesões vesiculares de base eritematosa. Posteriormente, essas vesículas se rompem, formam uma crosta e evoluem para cura. É importante destacar que a dor nestas lesões pode ser bastante intensa e deve ser observado seu adequado manejo. Quando a crosta desaparece e há a reepitelização, a lesão deixa de ser infectante e, na maioria dos casos, os sinais e sintomas desaparecem em poucas semanas. No entanto, é possível a ocorrência de casos graves e óbitos.

O diagnóstico laboratorial é realizado com a coleta de material da lesão, com auxílio de swab sintético seco. A ponta do swab deve ser pressionada de modo perpendicular contra a lesão e girada delicadamente. Para lesões crostosas, a crosta pode ser raspada ou excisada e acondicionada em recipiente vazio.

Devem ser coletados 2 swabs, que devem ser acondicionados um swab por tubo de envase tipo Falcon ou criogênico, com tampa de rosca, sem meio de transporte e devidamente identificados (nome do paciente, data de nascimento, local da lesão, data e horário da coleta). É fundamental a notificação de todos os casos, que deve ser imediata, mesmo sem confirmação. A notificação deve ser feita à vigilância epidemiológica local e ao Ministério da Saúde, através do seguinte link: https://redcap.saude.gov.br/surveys/?s=ER7Y39373K

Deve-se solicitar testagens para IST, como HIV, sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites A, B e C.

É importante ainda o rastreio dos contatos dos últimos 21 dias, domiciliares e/ou sexuais. O paciente deverá ser afastado do trabalho até que as crostas caiam e ocorra a reepitelização, em média 21 dias contados a partir do início dos sintomas.

É basicamente medidas de suporte clínico que envolvem manejo da dor e do prurido, cuidados de higiene na área afetada e manutenção do balanço hidroeletrolítico. Nos casos de proctite, faz se necessária a  avaliação de um proctologista. A maioria dos casos apresenta sintomas leves e moderados.

O antiviral Tecovirimat está envolvido em quatro ensaios clínicos para avaliação de sua eficácia no tratamento da monkeypox. Em agosto, o Tecovirimat foi aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para uso pelo Ministério da Saúde.

Atualmente, pelo menos duas vacinas de varíola estão em uso no mundo. No final de agosto, a Anvisa aprovou o uso da vacina contra monkeypox para pessoas maiores de 18 anos de idade. No início deste mês, chegou também ao Brasil o primeiro lote com 20.000 doses da vacina dinamarquesa Jynneos/Imvanex. Até o final do ano já estão encomendadas outras 30.000 doses.

O Ministério da Saúde recomenda a vacina apenas a profissionais de saúde que manipulam amostras clínicas de monkeypox e contactantes diretos de pacientes diagnosticados.

Durante a avaliação de um caso suspeito o profissional de saúde deve estar utilizando todos os Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs): gorro, máscara N95, óculos de proteção, luvas e capote. Ainda, a sala de atendimento deve ser higienizada entre um paciente e outro.

Os pacientes internados até o momento têm sido para controle álgico, principalmente na presença de proctite ou quadros infecciosos bacterianos secundários, para antibioticoterapia venosa. Assim, pacientes com dor refratária ao tratamento oral ou aqueles com lesões extensas e infectadas, bem como pacientes com lesões orais que dificultam a deglutição, devem ser avaliados para internação hospitalar.

 

Para orientações sobre notificação e encaminhamento de casos:

CIEVS (Centro de Informações Estratégicas e Resposta de Vigilância em Saúde).

Telefones: (21) 2333-3852 / 2333-3996 / 2333-3993 – seg. a sex. de 8h a 17h;

Celular: (21) 98596-6553 – 24 horas, 7 dias por semana;

E-mail: notifica@saude.rj.gov.br

Site do CIEVS: http://www.riocomsaude.rj.gov.br/site/Conteudo/Vigilancia.aspx?Area=CIEVS

Na opinião do infectologista, por se tratar de uma doença que requer contato próximo e, na maior parte das vezes íntimo, a velocidade de disseminação não tem sido tão grande como ocorreu com a Covid-19.

“Desde meados de agosto já observamos uma queda no número de casos mundialmente e uma tendência à estabilização no Brasil. A despeito do potencial pandêmico, por se tratar de uma doença que possui vacina, caso os esforços sejam tomados em nível local e global, com ampla disponibilidade da vacina às populações vulneráveis, acredito e espero que consigamos eliminá-la como problema de saúde pública.”

Informações importantes:

Especialista consultado:

Dr. Marcos Davi Gomes de Sousa (CRM: 52-91156-9)

– Residência médica em Infectologia pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE/Ministerio da Saúde).

– Mestrado em Pesquisa Clínica em Infectologia pelo Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz).

– Título de Qualificação em Infecções Sexualmente Transmissíveis pela Sociedade Brasileira de DST (SBDST).

– Título de especialista em Infectologia (SBI/AMB)

– Médico do Serviço de Imunologia do Hospital Universitário Gaffreé e Guinle (EBSERH/Unirio).

– Sub-investigador do Laboratório de Pesquisa Clínica em Infectologia – LapClin AIDS INI/Fiocruz.  

– Professor da Disciplina de Doenças Infecciosas e Parasitárias – Curso de Medicina – Universidade Estácio de Sá.

– Membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da International AIDS Society (IAS).

BRASIL. Plano de Contingência Nacional para Monkeypox. volume 2, versão de 12/09/22. 

Isaacs SN, Mitjà M. Epidemiology, Clinical manifestations and diagnosis of monkeypox. Uptodate.

Isaacs SN, Shenoy ES, Goldfarb A. Treatment and prevention of Monkeypox. Uptodate. 

Nosso mundo em dados. Casos confirmados da Monkeypox.