Sessão falando com experts – RD 55

Avaliação dos efeitos adversos e comorbidades dos pacientes tratados com poliquimioterapia para hanseníase em 13 anos no Hospital Universitário Pedro Ernesto

Tese de mestrado por Violeta Tortelly
Orientadora: Sueli Coelho da Silva Carneiro
Coorientador: Arles Martins Brotas

A hanseníase ainda é um problema de saúde pública no Brasil, está entre as doenças negligenciadas e leva a incapacidades físicas de pacientes em idade produtiva.

Desde 1994, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde preconizam a poliquimioterapia (PQT) para o tratamento da hanseníase, com objetivo inicial de diminuir a prevalência da doença, assim como a resistência medicamentosa. O tempo de tratamento é prolongado, no mínimo seis meses até 12 ou 24 meses.  

Foi realizado um estudo observacional, analítico, coorte retrospectivo, baseado na análise de prontuários de 371 pacientes diagnosticados com hanseníase no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), no período de janeiro de 2002 a dezembro de 2014. Foram analisados os dados epidemiológicos e demográficos do total e dos 196 que foram acompanhados no serviço. Observou-se os efeitos adversos (EA) e foi constatado que, com a PQT, 30,27% (56) dos pacientes acompanhados apresentou alguma alteração e, em 16,21% (30) dos casos a droga implicada foi substituída. 

Os EA mais frequentes foram anemia hemolítica aguda e crônica (30,35% e 42,85%), seguidos de alteração gastrointestinal (19,64%). A síndrome sulfônica foi descrita em três prontuários. A dapsona foi a droga mais responsável pelos EA.  A partir desses achados e contribuindo para estratégia de descentralização do tratamento também foram construídos algoritmos de identificação e conduta terapêutica para os EA mais frequentes e mais graves, para que a experiência de um hospital quaternário auxilie a atenção primária na condução dos pacientes em tratamento para hanseníase.

 

Link para a tese completa: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/8639

 

 

Progressão do dano neural periférico na hanseníase: a avaliação do efeito da cirurgia de descompressão neural em uma região endêmica do Brasil

Tese de Mestrado por Maria Dias Torres Kenedi
Orientadora: Maria Kátia Gomes.
Coorientador: Antonio José Ledo Alves da Cunha.

 

A transcendência da hanseníase está relacionada à progressão do dano neural, que pode continuar mesmo após o tratamento com a poliquimioterapia específica (PQT), causando incapacidades físicas com consequências no trabalho e na vida social. A cirurgia de descompressão neural periférica apresenta-se como terapêutica complementar ao tratamento clínico conservador com corticóide sistêmico preconizado pela Organização Mundial da Saúde. O uso prolongado da corticoterapia parece não interromper o curso progressivo do dano neural e pode acabar conduzindo a incapacidades físicas, instaladas inclusive após a PQT. A cirurgia de descompressão neural periférica é considerada uma cirurgia preventiva do dano neural na hanseníase e quando indicada adequadamente, tem o objetivo de evitar a progressão do dano neural, interrompendo a cadeia do processo de instalação de novas incapacidades físicas.

Objetivo: Avaliar a progressão do dano neural em pacientes com hanseníase submetidos a cirurgias de descompressão neural periférica, no hospital de referência Casa de Saúde Santa Marcelina – Porto Velho/RO.

Metodologia: Trata-se de um estudo observacional de coorte retrospectiva, descritivo-analítico para avaliar o efeito da cirurgia de descompressão neural periférica na evolução do dano neural na hanseníase. Indivíduos com hanseníase submetidos a cirurgia de descompressão neural periférica na Casa de Saúde Santa Marcelina no período entre os anos 2000 e 2019 foram avaliados através da Avaliação Neural Simplificada antes e após a cirurgia.

Resultados: 574 indivíduos foram submetidos a 2549 cirurgias nos nervos ulnar, mediano, tibial e/ou fibular. A maioria dos indivíduos era  multibacilares (90,9%), dimorfos (84,7%), tinham entre 31 e 60 anos (73,2%) e provenientes do estado de Rondônia (67,4%). A maioria dos indivíduos apresentou manutenção ou melhora do grau de incapacidade física (GIF), da sensibilidade e da força nos membros superiores e inferiores para todos os nervos operados.

Conclusão: Foi observada melhora ou manutenção do GIF em mais de 80% dos indivíduos operados. Na análise nervo a nervo, considerando-se as funções sensitiva e motora para todos os troncos neurais operados, houve melhora ou manutenção dos valores apresentados no pré-operatório para a maioria dos indivíduos. Considerando os resultados obtidos neste estudo, concluímos que a cirurgia de descompressão neural periférica foi capaz de interromper a progressão do dano neural em mais de 80% dos indivíduos operados. O tempo entre a cirurgia e a última avaliação apresentou correlação com a piora do GIF para os membros superiores, mas não para os membros inferiores.

Local da incisão para liberação do nervo ulnar e nervo exposto após liberação

Fonte: Elifaz Cabral (arquivo pessoal)