Coluna Opinião
Considerações sobre os aspectos psicológicos do vitiligo
Por Daniela Antelo (dermatologista do Centro de Tratamento do Vitiligo) e Leonardo de Oliveira Alves (psicólogo do Centro de Tratamento do Vitiligo)
“O Eu é uma construção”. Nós não nascemos com uma ideia definida de quem somos. Estabelecer um Eu é um processo longo, de construção, que envolve várias fases, processo este que tem como base aquilo que chamamos de autoimagem. Todo ser humano vai se constituindo a partir de uma imagem, à qual vai lentamente aderindo. A autoimagem será o nosso ponto de partida para discutir a relevância dos impactos psicológicos do vitiligo. Abalos e alterações de autoimagem podem afetar a própria concepção de EU, alicerce de todo o aparato psíquico, e isso traz consequências que podem ser das mais brandas às mais avassaladoras.
O envelhecimento, por exemplo, é um processo ao qual estamos todos sujeitos, é uma modificação desta autoimagem. Puberdade, idade adulta, rugas, cabelos brancos… Mas há que se considerar que é uma modificação lenta, gradual, natural, e principalmente, comum a todos os seres humanos. E mesmo assim, para alguns indivíduos, é algo bem difícil de elaborar. O vitiligo leva, ao contrário, a uma mudança rápida, radical, particular e inesperada da autoimagem.
O vitiligo é uma doença caracterizada pela despigmentação da pele e pela formação de manchas acrômicas de diferentes tamanhos e distribuição pelo corpo. Nestes termos, o vitiligo não representa uma ameaça significativa à integridade física do paciente. Entretanto em diferentes publicações e na nossa prática clínica, observamos dificuldade na aceitação do vitiligo, levando a baixa capacidade de gerenciar vergonha e falta de autoconfiança. O vitiligo facial e genital teve mais impacto psicológico do que nas outras áreas. Outras dificuldades relatadas incluíram frustração com falta de opções terapêuticas, preocupações dos pais se uma criança tem vitiligo, ideação suicida, medo que as manchas aumentem, problemas de emprego, dismorfofobia corporal, questões culturais e problemas psicossexuais.
Eventos agudos como perda de entes queridos, divórcio, perda de emprego, contratempos financeiros, problemas no relacionamento com familiares, colegas de trabalho ou vizinhos, mudança de cidade, de escola, etc., são sabidamente fatores de risco para o aparecimento de doenças. Evidentemente a depender das condições particulares que cada indivíduo tem para lidar com as situações, sejam elas materiais, pessoais ou sociais.
Se o dermatologista se dispuser a uma breve investigação dos eventos recentes dos seus pacientes de vitiligo, há uma grande chance de se deparar com situações como as descritas acima e que podem ser relacionadas ao “gatilho” que desencadeia a doença. Em linhas gerais, estresse pode levar ao desencadeamento do vitiligo e o vitiligo leva ao desencadeamento de estresse. Esse é o ciclo vicioso desafiador com o qual devemos lidar. Além do tratamento dermatológico específico, a psicoterapia pode contribuir fazendo com que o paciente lide melhor com as consequências psicossociais da doença, resultando em melhor qualidade de vida.
Por muitos considerarem um acometimento “estritamente estético”, estudos apontam que muitas vezes os pacientes sentem-se sub-tratados, sub-informados e incompreendidos em suas angústias por parte do médico. É importante termos isto em mente para podermos oferecer o melhor tratamento possível para nossos pacientes.