A relação entre o canabidiol e a dermatologia
Usada na medicina há mais de 2 mil anos, a Cannabis invade o skincare e vem ganhando força como um possível tratamento para diversos distúrbios de pele. E o que a ciência diz sobre isso?
O uso da Cannabis na medicina é mais antigo do que imaginamos: os relatos de uso da planta para fins medicinais contam mais de dois mil anos. Em 70 d.C. o grego Dioscórides, fundador da farmacognosia (ramo mais antigo da farmacologia), descreveu a erva como útil para o tratamento de dores e inflamações em seu livro “De Matéria Médica”. Mas foi somente em 1963 que o professor Raphael Mechoulam, da Universidade Hebraica de Jerusalém, apresentou ao mundo os princípios ativos da planta.
Apesar do tema ainda render muita discussão, especialistas chamam a atenção para a necessidade de pesquisas mais aprofundadas sobre o uso da Cannabis na medicina e também para a falta de informação da população: uma pesquisa feita pela CNN, em 2021, mostrou que 51% dos participantes desconheciam a Cannabis medicinal.
O CBD na medicina
O canabidiol (CBD), uma das muitas substâncias extraídas da Cannabis, não tem efeito psicoativo e vem sendo utilizado como relaxante muscular, analgésico, ansiolítico, neuroprotetor, anticonvulsivante e anti-inflamatório. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a substância pode ser utilizada como antiasmática, anti-inflamatória e antitumoral, além de poder ser indicada para controlar a epilepsia e tratar ansiedade. No Brasil, segundo a Resolução CFM 2113/2014, as evidências experimentais acumuladas por meio de pesquisas realizadas nos últimos anos indicam que o CBD possui uma ampla gama de ações farmacológicas, com “um potencial interesse terapêutico em diversos quadros nosológicos, entre eles epilepsia, esquizofrenia, Parkinson, Alzheimer, isquemias, diabetes, náuseas, câncer (como analgésico e imunossupressor), em distúrbios de ansiedade, do sono e do movimento”.
Aprovação da Anvisa e comercialização
A partir da criação de uma categoria de medicamentos derivados da Cannabis, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou 14 produtos até agora. Em fevereiro deste ano foram aprovados os fitofármacos Canabidiol Belcher, Canabidiol Aura Pharma e Canabidiol Greencare. Os produtos podem ser vendidos nas farmácias sob prescrição médica, mediante receita de controle especial.
E na dermatologia?
Com o avanço da ciência, o canabidiol está sendo testado ao redor do mundo como terapia de ao menos vinte doenças. Na dermatologia ele vem ganhando força como um possível tratamento para diversos distúrbios da pele (acne, prurido crônico, psoríase, líquen plano, esclerodermia, dermatite seborreica e atópica e até melanoma), devido suas propriedades antipruriginosas, antioxidantes e anti-inflamatórias, como indicam vários estudos.
Um deles, realizado pela Universidade de Dundee (https://www.dundee.ac.uk/stories/research-reveals-first-time-how-cbd-works), no Reino Unido, mostrou pela primeira vez porque o canabidiol pode ser eficaz no tratamento de doenças cutâneas. Segundo um dos autores, o CBD tem como alvo nas células cutâneas a proteína BACH1, que ajusta a expressão de genes antioxidantes e anti-inflamatórios. Assim, esse novo alvo pode auxiliar a racionalizar o uso do CBD em distúrbios da pele com níveis relevantes de inflamação.
Na indústria cosmética, principalmente nos Estados Unidos, o CBD já invadiu o skincare, sendo o óleo de canabidiol um produto muito utilizado por seus efeitos – segundo estudos – antiacne, antibactericida e relaxante.
Entrevista
Dra. Meire Parada
Especialista em Dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD)
Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica biênio 2021/2022
Membro da Câmara Técnica de Dermatologia do Conselho Regional de São Paulo (CREMESP).
Dermatologista colaboradora na área de Cosmiatria da Unidade de Cosmiatria, Cirurgia e Oncologia – UNICCO – do Departamento de Dermatologia da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP – Escola Paulista de Medicina (2002 a 2015)
Rio Dermatológico: Quais os benefícios do canabidiol na dermatologia?
Dra. Meire: Desde a década de 90, os cientistas afirmam que os humanos (e muitos outros animais) têm um sistema complexo de receptores de canabinoides em todo o corpo, inclusive na pele. Este sistema endocanabinoide ajuda a regular e normalizar muitos processos fisiológicos, incluindo dor, humor, estresse, sono e função do sistema imunológico. O corpo produz seus próprios canabinoides que ativam o sistema, e o CBD e outros canabinoides à base de plantas também estimulam seus efeitos de cura.
Aplicando topicamente o CBD, as membranas celulares da pele interagem com os receptores canabinoides (principalmente os canais da classe TRPV), possibilitando os benefícios terapêuticos do CBD de forma local, prevenindo inflamação e sensibilização dos sítios nervosos periféricos. De forma geral, exerce importante papel anti-inflamatório por agir nas células do sistema imune, diminuindo liberação de citocinas pró-inflamatórias e espécies reativas de oxigênio, e ativando a liberação de citocinas anti-inflamatórias de forma direta ou mediada por receptores específicos.
A aplicação tópica de CBD está se tornando cada vez mais popular como um método de administração que pode ajudar a aliviar dores musculares localizadas, dores/inflamações nas articulações artríticas e condições graves da pele, como psoríase e eczema. Ele tem ação anti-fibrótica, anti-inflamatória, de recuperação da barreira cutânea e ressecamento da pele.
RD: Quais doenças cutâneas podem ser tratadas com o CBD?
As evidências em humanos ainda são bastante limitadas, o que nos dificulta saber se o CBD traz benefícios para as doenças cutâneas. O CBD tópico poderá ser um tratamento promissor para condições de pele, podendo teoricamente diminuir o prurido, a dor e o processo inflamatório. Seu uso tópico pode melhorar a barreira da pele, sendo assim, podemos considerar que o prurido, o eczema atópico, eczema de contato alérgico, a psoríase, a acne vulgar e a rosácea podem se beneficiar com o uso tópico. Além disso, se levarmos em consideração que as doenças de pele têm um componente emocional (principalmente ansiedade), é bastante razoável levar em consideração que o uso do óleo de CBD via oral pode auxiliar no tratamento.
RD: Nos últimos anos, a indústria brasileira de cosméticos lançou o Cannabinoid Active System (CBA), com substâncias que atuam na mesma região do organismo que o canabidiol e, por ser liberado no Brasil, a indústria vem usufruindo disso. Qual sua opinião sobre isso?
O sistema endocanabinoide é um sistema de sinalização endógena que atua fisiologicamente na regulação da homeostase. Os receptores são expressos na membrana das diferentes linhagens celulares, assim como seus ligantes. A pele possui uma capacidade robusta para sintetizar e responder aos canabinoides. Os principais receptores do sistema canabinoide são o CB1 e o CB2, porém o efeito do CBD parece estar associado também aos receptores TRPV1 (periferia) e GPR55 (central). Na pele humana, CB1 é expresso em queratinócitos dentro das camadas epidérmicas mais diferenciadas, folículo piloso, glândulas sebáceas, neurônios sensoriais e células imunes. CB2 é expresso em queratinócitos, glândulas sebáceas, neurônios sensoriais e células imunes.
Por muito tempo, o sistema endocanabinoide ficou às sombras de outros sistemas de neurotransmissores por seu papel de regulação geral. Mas nos últimos anos, publicações científicas têm mostrado o potencial terapêutico da modulação dos componentes desse sistema. Pode se considerar que qualquer molécula que, de alguma maneira, influencie no funcionamento do SEC (sistema endocanabinoide) tenha um potencial interessante na área da dermatologia. A pele é o órgão mais exposto ao ambiente, mas tem uma importância e uma regulação fisiológica sistêmica indiscutível. A capacidade desse sistema de manter a homeostase do organismo é a chave para que tenhamos boas respostas clínicas.
RD: Na sua opinião, por que o uso do canabidiol na medicina ainda é tão estigmatizado?
O canabidiol é um dos principais componentes da planta Cannabis sativa. Essa planta é utilizada há milhares de anos para fins medicinais, porém, por ser também usada para fins recreativos acabou estigmatizada. É importante entender que o composto que gera os efeitos psicoativos característicos do uso da planta na forma fumada é o THC (Tetrahidrocanabinol) e não o CBD. A imensa maioria dos produtos disponíveis no mercado sequer tem traços de THC, o que os torna extremamente seguros.
Porém, muitos colegas ainda têm preconceito por não compreenderem que se tratam de produtos diferentes, com composição diferente. Precisamos fomentar a discussão, a educação continuada e promover a divulgação de informações de qualidade para que os produtos com CBD possam ser considerados mais uma opção de medicamento para nossos pacientes.
Curiosidades
- Citações no Sushruta Samhita (texto em sânscrito da medicina tradicional indiana) mostram que os efeitos narcóticos da Cannabis podem ter sido utilizados como anestesia em procedimentos cirúrgicos;
- Em 2020, a Comissão de Drogas Narcóticas da Organização das Nações Unidas (CND-ONU) reclassificou a Cannabis em sua lista de controle de drogas: antes incluída em duas seções, agora ela compõe apenas uma – a das drogas menos perigosas;
- A Universidade de São Paulo (USP) é a instituição que tem a maior produção científica mundial sobre canabidiol.