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#IsotretinoínaChallenge: o perigo que vem das redes
Entidades e médicos se posicinaram, alertando sobre os perigos do uso indiscriminado deste medicamento. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) divulgou um esclarecimento à população, reiterando que “na comunidade científica não existem relatos, muito menos estudos clínicos prospectivos e controlados, que sugiram o uso da isotretinoína oral para o afinamento do nariz”. A droga é indicada para o tratamento sistêmico de acne vulgar moderada a grave, com eficácia comprovada para este fim. Para esclarecer todas as suas dúvidas, trouxemos as opiniões de duas renomadas especialistas sobre este assunto:
“Essa suposição não tem nenhuma base teórica ou científica, ou seja, é absolutamente não recomendada.”
A isotretinoína oral (ISO) é aprovada somente para o tratamento da acne grave e moderada, neste caso quando não há resposta a tratamentos convencionais anteriores, observa-se tendência ou surgimento de cicatrizes que podem ser precoces, além de repercussão psicossocial relevante, com impacto muito negativo na qualidade de vida dos pacientes. Foi aprovada nos Estados Unidos em 1982 e no Brasil em 1990. Desde então surgiram inúmeras publicações, recomendações, guias de conduta, revisões sistemáticas, etc, demonstrando sua eficácia e segurança. Milhões de indivíduos foram tratados em quase todos os países do mundo com ISO; a droga nunca foi retirada do mercado, o que demonstra a sua segurança se indicada corretamente e com seguimento recomendado. Por ser droga com múltiplos mecanismos de ação, tem sido prescrita para algumas indicações não aprovadas (off label), como rosácea, dermatite seborreica, prevenção de câncer de pele não melanoma, controle de queratoses actínicas múltiplas, fotoenvelhecimento, etc. Ressalta-se que tais prescrições são de total responsabilidade do médico prescritor, ou seja, não há nenhuma farmacovigilância ou comprometimento daindústria farmacêutica.
O modo correto de prescrever a ISO, além de envolver boa anamnese, exame físico e orientação detalhada sobre seu mecanismo de ação, expectativas e possíveis efeitos colaterais, estes em geral facilmente controláveis, envolve a realização de exames para avaliar a função hepática, perfil lipídico e hemograma antes do tratamento e após 6 a 8 semanas. Posteriormente, apenas devem ser monitorados os alterados; em geral, as alterações são precoces, leves e reversíveis. O maior risco e o mais grave é a teratogenicidade, particularmente se a gestante for exposta no primeiro trimestre da gravidez, pois o risco de embriopatias é de 28%. Portanto, é necessário aguardar a menstruação para iniciar o tratamento; solicitar beta-HCG prévio e mensalmente e exigir o uso de um método anticoncepcional seguro, durante e até 30 dias após a interrupção do tratamento.
Ainda existe preocupação com a possível associação da ISO com depressão e ideação ou tentativa de suicídio. Embora esse aspecto conste na bula, atualmente não tem respaldo científico consistente. Muitos estudos populacionais, caso-controle, com amostras grandes, não comprovaram esse risco. Portanto, não há contraindicação psiquiátrica. Entretanto, sabe-se que a adolescência é fator causal para depressão e suicídio e que também existe essa associação com a acne. Assim, é importante monitorar sinais e sintomas e indicar cuidados psicológicos ou psiquiátricos, se necessário. Entre os mecanismos de ação da ISO os mais significativos são a redução do tamanho e produção do sebo pelas glândulas sebáceas, por apoptose dos sebócitos, ativação ou inibição de vias nucleares relacionadas à lipogênese e o controle da inflamação. Esses efeitos podem levar até 3 meses para serem observados clinicamente. O nariz é uma região rica em glândulas sebáceas e, por isso, muito oleosa.
A ideia de que a ISO possa afinar o nariz, “inventada” não se sabe por quem, pois não há nenhuma referência na literatura médica, pode ter sido baseada em três aspectos relacionados aos efeitos da droga:


Concluindo, modificar a anatomia do nariz não é possível com a isotretinoína ou qualquer outra droga. A abordagem tem que ser cirúrgica.

“Informação totalmente sem respaldo científico”
As redes sociais e a internet como um todo são ótimas ferramentas para informação e propagação de conhecimento. Por outro lado, há de se ter senso crítico de no mínimo verificar a autenticidade e veracidade das notícias divulgadas, especialmente no que concerne às questões de saúde. A disseminação de informações inverídicas ou sem responsabilidade crítica não é algo recente. Entretanto, com os avanços da tecnologia, essa prática ganhou proporções ainda maiores.
Recentemente, publicações de adolescentes em redes sociais sugerindo que a isotretinoína oral pudesse afinar o nariz, informação totalmente sem respaldo científico, “viralizaram”, entrando para os assuntos mais comentados das redes sociais. Essa mudança pode até ser observada em casos específicos de rinofimas tratados com isotretinoína oral, ressaltando, entretanto, que o afinamento seria da pele e não do nariz.
A isotretinoína oral foi lançada na década de 80 e,portanto, há 40 anos é um excelente medicamento para o tratamento da acne moderada e grave e nunca saiu do mercado. É segura e eficaz, mas exige acompanhamento do paciente com exames e consultas durante o tratamento. Não há, entretanto, motivos em absoluto para as pessoas ficarem preocupadas quando tiverem que tomá-la por indicação de seu dermatologista, o médico especialista
que irá conduzir com total segurança e com excelentes resultados o tratamento indicado corretamente.
A polêmica em relação à isotretinoína oral não é de hoje. Contraindicada na gestação e até 2 meses antes da concepção pelo risco de teratogenicidade, gerou informações desencontradas quanto à possibilidade de infertilidade da mulher e até mesmo do paciente
do sexo masculino que tivessem sido tratados com a droga. Outra celeuma divulgada pela imprensa leiga foi em relação ao risco de depressão em pacientes em uso do medicamento. Embora conste na bula, pesquisas científicas realizadas não estabeleceram essa associação. Em artigo publicado em 2019 no JAMA, pesquisadores da Universidade de Harvard, nos EUA, analisaram dados que não foram suficientes para apontar esta ligação causal.
Devemos, todavia, estar atentos e no controle dos possíveis efeitos adversos como hepatopatia, dislipidemia, e no sexo feminino, indicar apenas após a certificação da paciente não estar grávida, informando-a sobre a adoção de medidas eficientes de anticoncepção durante e até dois meses do final do tratamento.
Clique aqui e assista a entrevista completa com a dra. Ediléia Bagatin.