Coluna Opinião – RD 53

Coluna Opinião

Relação da criança com skincare

Por Ana Mósca – Dermatologista pediátrica do Hospital Municipal Jesus (RJ) e sócia titular das Sociedades de Dermatologia (SBD) e Pediatria (SBP).

O termo skincare nada mais é do que “cuidados com a pele”, expressão já conhecida da grande maioria das pessoas. Esse conceito vem sendo usado em muitos países para denominar uma rotina, os passos e os produtos que podem ser usados no cuidado diário com a pele como uma proteção. A grande questão, nesse contexto, é que a prevenção e os cuidados estão, de uma maneira geral, relacionados com algum produto químico de higiene, beleza e rejuvenescimento. Portanto, como podemos cuidar do nosso corpo, sem causar prejuízo à saúde? Devido às características próprias da pele do recém-nascido (RN), de lactentes e de crianças, o uso dos produtos cosméticos destinados à sua higiene e proteção requer uma atenção especial. Muitos produtos direcionados ao uso infantil têm substâncias potencialmente tóxicas e prejudiciais à pele das crianças. O equilíbrio do uso de determinados produtos é muito difícil, porque a imaturidade da barreira epidérmica é muito grande, tornando a pele mais suscetível ao trauma e à toxicidade por absorção percutânea de drogas. E quanto maior a relação entre superfície corporal e peso, maior o risco de toxicidade percutânea. Nem mesmo rótulos contendo frases como “dermatologicamente testado” ou “pH balanceado” ou “ingredientes naturais ou orgânicos” garantem a segurança dos ingredientes do produto. Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina regras mais rigorosas para a liberação de produtos destinados às crianças. Então, antes de comprar qualquer cosmético para o bebê ou para a criança, os pais devem observar se ele é liberado pela Anvisa nas faixas etárias correspondentes.

A higienização compulsiva com as wipes vem aumentando o arsenal de novidades. É um mercado promissor e inúmeros cosméticos também crescem com a propaganda de serem skincare. A utilização cada vez mais precoce de cosméticos, especialmente maquiagens de adultos e esmaltes, tem aumentado consideravelmente a ocorrência de dermatites de contato, principalmente nas meninas. Produtos como maquiagens, esmaltes, pinturas ou tatuagens podem causar sérias irritações na pele das crianças. É comum nos salões de cabelereiros vermos mães já utilizando esses produtos nos seus filhos, incorporados como uma brincadeira. Temos que lembrar que os esmaltes são causas frequentes de alergias no rosto e ao redor dos olhos também na fase infantil. Existe uma gama de maquiagens e esmaltes adequados para uso nas crianças, de fácil manuseio e altamente solúvel em água. Uma questão importante a se considerar: as maquiagens usadas nos brinquedos não devem ser aplicadas ludicamente na pele infantil. São consideradas tóxicas e feitas para tipo específico de material. Não podem, também, serem deglutidas. Além dos riscos de irritações e alergias, há estudos que mostram que algumas substâncias encontradas em cosméticos (conservantes, fragrâncias e até filtros solares, por exemplo) podem levar a prejuízos à saúde infantil quando usados nas faixas etárias não correspondentes, com alguns efeitos hormonais ou toxicidade neurológica. Não há uma idade “segura” para indicar a introdução de produtos cosméticos. Sendo assim, quanto mais os pais conseguirem postergar o uso de cosméticos supérfluos pelas crianças, e quanto menor o número de produtos utilizados, melhor saúde elas terão.

Nesse processo de mídia globalizada e como alvo as indústrias voltadas para a beleza, “sucesso” e o chamado skincare, consequentemente, não é exagero, as crianças que são indivíduos mais vulneráveis, no seu cotidiano, se defrontam com uma nova realidade sociocultural, uma sociedade tecnológica, globalizada e consumista. A influência de um determinado estereótipo corporal vinculado na mídia, além de atingir os adultos, também influenciam as crianças, um grupo de indivíduos frágeis que desde cedo são educados nos moldes padronizados da sociedade. No padrão de beleza que se observa é que a preferência das crianças são personagens de desenhos animados ou de programas infantis. Produtos de beleza e higiene pessoal são constantemente associados a esses personagens e personalidades. O padrão de beleza é o cabelo e maquiagem na sua grande maioria, e muitas vezes, meninas são submetidas a padrões de “torturas” pela moda corpórea e estética. Na medida que essas crianças vão crescendo, criam gostos e desejos e acabam por sujeitar a moda situada no seu contexto social. Há uma grande distorção entre a saúde da pele e corporal, skincare e o alcance de objetivos do não envelhecimento, impossíveis de se conseguir. Quanto aos meninos é comum observarmos mudança de aspecto dos cabelos, quando eles se esmeram com algum personagem da TV ou esporte (futebol), e aqui os ídolos são copiados. Muitas vezes são crianças que estão com alisamentos capilares, tintas, cortes de cabelos televisivos ou outros artifícios. A maioria dos familiares consideram, em alguns grupos, normal esse padrão e até têm orgulho da projeção que eles os fazem. É muito difícil o convencimento, desmitificar o quanto é danoso esse comportamento do ponto de vista de saúde física e mental. Outro dado consumista é que as imagens de crianças divulgadas através dos meios de comunicação internacional geralmente são de classe média alta e a maioria branca, cabelos lisos, olhos claros, contrapondo à realidade do padrão das crianças brasileiras, que na nossa sociedade são mestiças, afrodescendentes, com nível socioeconômico mais baixo do que os padrões mundiais, muitas delas com sobrepeso ou fora dos padrões sociais, fazendo parte, pelos meios publicitários, de um grupo preterido pela sociedade. Não se vê propaganda de crianças afrodescendentes com cabelos naturais, sem estarem quimicamente tratados e, quando vemos essas imagens, a maioria está maquiada e com photoshop. É uma realidade e uma tendência mundial da mídia, a procura da beleza e sucesso.


Nesse contexto, os adultos deveriam mostrar maturidade, no entanto alguns, no que se refere às responsabilidades para com as crianças, não o fazem. Muitos deles projetam suas próprias dificuldades e autoestima para seus filhos. Como há exemplos dentro da própria família em que outras crianças estão acostumadas a usar determinados produtos, é muito difícil o profissional da área da saúde mudar esses hábitos. Estrutura e equilíbrio familiar são importantes para a construção da criança como um todo. A criança sem valores fundamentais e com a centralidade da mídia, muitas vezes adota posturas ditadas pela globalização, tornando esse meio de entretenimento em massa um padrão, se afastando dos valores da infância, transformando esses meios como um brinquedo e transferindo-os para uma atmosfera lúdica. É importante os pais estarem atentos aos hábitos de higiene, cuidados, fobias, autoestima e isso se refere como um todo, esse equilíbrio para a criança. Dar o limite quanto à autoimagem e quando perceberem distorções, procurarem precocemente ajuda. É o exemplo do cotidiano que forma crianças adultos. Os pais e a família são os modelos, a referência na formação dos valores socioeducativos infantis. A aceitação da imagem corporal dentro do ambiente domiciliar, a saúde física e mental, é o princípio da vida.

SUGESTÕES DE LEITURA

1-Fernandes JD; Machado MCR; Oliveira ZNP. Prevenção e cuidados com a pele da criança e do recém-nascido.
An. Bras. Dermatol. 86 (1), Fev. 2011.

2-https://www.sbp.com.br/especiais/pediatria-para-familias/cuidados-com-a-saude/uso-de-cosmeticos-em-criancas-o-que-os-pais-devem-saber/

3-Carlsson, Ulla, Feilitzen, Cecilia Von. A Criança e a mídia: imagem, educação, participação. UNESCO Office in
Brasilia, 2002.