Coluna Opinião
O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE MUCORMICOSE
Nas últimas semanas, o aumento abrupto de casos da mucormicose (anteriormente denominada Zigomicose) em pacientes com Covid-19 na Índia, fez com que a doença se tornasse um assunto amplamente divulgado na mídia em todo o mundo. Os dermatologistas Regina Schechtman e duardo Falcão, do Departamento de Micologia da SBDRJ, convidaram o Prof. Alexandro Bonifaz, do México, para palestrar sobre o assunto no último Curso de Micologia da SBDRJ, e redigiram para a Rio Dermatológico uma atualização sobre a doença e sua situação atual. Confira:
Por Regina Casz Schechtman e Eduardo Falcão
A mucormicose é uma infecção fúngica oportunística, que apresenta alta letalidade. Na maioria das vezes, acomete a mucosa nasal devido a sua inalação. É causada por fungos do subfilo Mucoromycotina e ordem Mucorales, que classicamente eram classificados como zigomicetos. No Brasil, o gênero mais frequente é Rhizopus. Por apresentarem baixa virulência, a infecção em pacientes imunocompetentes é rara, sendo uma doença mais frequente em imunossuprimidos, principalmente nos indivíduos diabéticos (geralmente descompensados) e portadores de neoplasias hematológicas.
Depois da contaminação, o fungo invade os vasos sanguíneos levando rapidamente à necrose e destruição tecidual a tal ponto que, após algum tempo de infecção, é possível visualizar a olho nu o micélio aéreo do fungo sobre os tecidos enegrecidos. Por conta da característica das lesões, a doença foi erroneamente apelidada de “fungo negro”, apesar do fungo propriamente dito ser hialino. O acometimento da região rinocerebral é a forma mais comum da doença, que evolui de forma abrupta comprometendo órbitas e invadindo o sistema nervoso central, resultando em lesões assimétricas e desfigurantes. São acometidos em menor frequência os pulmões, sistema gastrointestinal e pele, mas a doença pode se disseminar para qualquer órgão.
O diagnóstico pode ser realizado de forma simples, pelo exame micológico direto e cultura de exsudato ou material necrótico. Os mucormicetos produzem hifas largas, hialinas e cenocíticas e crescem rapidamente em cultivo, com micélio aéreo abundante.
O tratamento deve ser rápido e multidisciplinar. O medicamento de primeira linha é a anfotericina B lipossomal e frequentemente é necessária a cirurgia. Além do itraconazol e posaconazol, o isavuconazol é um medicamento novo com boa eficácia e segurança, já liberado pela ANVISA para comercialização no Brasil.
Nos últimos 12 meses, mais de 40 artigos correlacionando a mucormicose e a Covid-19 foram publicados na literatura internacional. As publicações ressaltam o diabetes, o uso de corticosteroides no tratamento da Covid-19 e a imunossupressão causada pelo decréscimo de células T CD4+ e T CD8+ nesses pacientes como fatores de risco.
A maioria dos casos relatados ocorreu na Índia, onde vem sendo observado um aumento dramático na incidência de mucormicose nos últimos meses, chegando a quase 9 mil casos. A Índia ultrapassou o Brasil em número de casos de Covid (mais de 28 milhões) e enfrenta alta prevalência (8,9% da população adulta) de diabetes nas áreas urbanas, associada à baixa cobertura do sistema de saúde e a uma prevalência de mucormicose pré-pandemia de aproximadamente 1,4 para 10000 habitantes.
No Brasil, em 2020, um grupo da Faculdade de Medicina da USP relatou um caso de evolução fatal de um paciente de 86 anos com diagnóstico de Covid-19 e mucormicose gastrointestinal. Recentemente, um caso ainda não confirmado foi relatado pela vigilância em saúde de Santa Catarina.
Apesar de não ser um motivo para alarmar a população, é importante lembrar-se das infecções fúngicas nos diagnósticos diferenciais em pacientes com Covid-19. A mucormicose, aspergilose, candidíase (importante epidemiologicamente, a Candida auris já foi relatada em uma unidade de pacientes com Covid na Bahia, e apresenta um perfil multirresistente aos antifúngicos) e pneumocistose são algumas das infecções oportunísticas que vêm sendo encontradas nesses pacientes.
SUGESTÕES DE LEITURA
Cornely OA, Alastruey-Izquierdo A, Arenz D, Chen SCA, Dannaoui E, Hochhegger B et al. Global guideline for the diagnosis and management of mucormycosis: an initiative of the European Confederation of Medical Mycology in cooperation with the Mycoses Study Group Education and Research Consortium. Lancet Infect Dis 2019;19(12):E405-E421.
Cornely OA, Arikan-Akdagli S, Dannaoui E, Groll AH, Lagrou K, Chakrabarti A et al. ESCMID and ECMM joint clinical guidelines for the diagnosis and management of mucormycosis 2013. Clin Microbiol Infect 2014;20(Suppl. 3):5-26.
Monte Junior ESD, Santos M, Ribeiro IB, Luz GO, Baba ER, Hirsch BS, et al. Rare and fatal gastrointestinal mucormycosis (Zygomycosis) in a COVID-19 patient: a case report. Clin Endosc. 2020;53(6):746–749
Ravani SA, Agrawal GA, Leuva PA, Modi PH, Amin KD. Rise of the phoenix: Mucormycosis in COVID-19 times. Indian J Ophthalmol. 2021;69(6):1563-1568
Song G, Liang G, Liu W. Fungal co-infections associated with global COVID-19 pandemic: A clinical and diagnostic perspective from China Mycopathologia. 2020;185:599–606