Coluna Ethos
MÍDIA E DERMATOLOGIA
Como a mídia está encarando o médico?
Qual seria o papel deste profissional no século 21 e como a sociedade o enxerga? Perdemos o respeito?
Por Regina Casz Schechtman
Está cada vez mais frequente a realização de procedimentos estéticos invasivos por profissionais não habilitados, aumentando os riscos de erros que podem ser irreversíveis. Assim, profissionais não habilitados, clínicas clandestinas e desinformação formam o caldo ideal que traz dores de cabeça para quem quer ser bonito a qualquer custo. A cosmiatria deve ser realizada por médico especializado, como o dermatologista, o qual está habilitado para isso e preparado para tratar também eventuais complicações que possam ocorrer. Aquele que pretende fazer um tratamento estético não deve se colocar sob os cuidados de não médicos ou mesmo de médicos que não possuem a formação adequada. Queimaduras e deformações no rosto e no corpo são exemplos de efeitos adversos enfrentados por pacientes que foram atendidas inicialmente por pessoas sem formação, e depois recorrem a dermatologistas na espera de reverter os quadros. Essa é uma situação que deve ser coibida por dois motivos. Em primeiro lugar, a realização desse tipo de procedimento por não médico é vetada em lei. Então, falamos de um ato ilegal que deve ser coibido pelas autoridades. Por outro lado, e ainda mais grave, é a situação de risco aos quais milhares de pessoas estão sendo expostas cotidianamente. Não são poucos os casos de sequelas e doenças causados por erros cometidos por essas pessoas. Em algumas situações, até mortes já foram registradas.
Sabemos que os veículos de imprensa – como os jornais, rádios, TV e revistas – têm compromisso com a ética e com a legalidade. É muito importante estimular a observação por estes veículos de critérios para proteger a população e garantir a valorização dos que estão realmente habilitados pelas entidades da área médica para executar essas ações.
Todos devem respeitar a legislação que protege o Ato Médico (Lei nº 12.842/2013), pela qual apenas graduados em medicina podem realizar procedimentos estéticos invasivos e fazer o diagnóstico e o tratamento de doenças. A participação de não médicos em reportagens sobre esses assuntos desrespeita pressuposto legal e coloca o espectador numa situação de vulnerabilidade ao informá-lo, erroneamente, sobre quem pode executar determinados serviços, como aplicações de preenchimentos e de toxina botulínica. Nesse caso, em pautas sobre a saúde e os cuidados com a pele, cabelos e unhas, o ideal é ouvir dermatologistas.
Segundo dados extraídos do site do Conselho Federal de Medicina, o Brasil tem, atualmente, cerca de 496.504 inscrições ativas, em todas as unidades da federação. O ato médico é uma lei federal (nº 12.842/13), criada para especificar quais são atividades exclusivamente médicas. Referida lei ainda dispõe que ela deve ser aplicada de forma que sejam resguardadas as competências próprias das profissões de assistente social, biólogo, biomédico, enfermeiro, farmacêutico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista, profissional de educação física, psicólogo, terapeuta ocupacional e técnico e tecnólogo de radiologia. Dispõe ainda que compete ao Conselho Federal de Medicina editar normas para definir o caráter experimental de procedimentos em medicina, autorizando ou vedando a sua prática pelos médicos. Mas, se existe um Conselho que regula o exercício da profissão, por que foi necessária a criação de uma lei? A lei foi criada com o intuito de fornecer garantias jurídicas mais sólidas às ações dos médicos e para harmonizar as ações de saúde entre todas as profissões (as normas do CFM são exclusivas para os médicos).
Até alguns anos atrás, a sociedade estabelecia diversas atribuições aos médicos, muitas vezes, transformando-os em verdadeiros deuses. A capacidade de interação e intervenção do médico no ambiente social, seja em condutas em saúde ou nas demais, tinha um poder assombroso. Entretanto, especialmente nos últimos anos, o embate entre o papel místico do médico e a realidade fizeram dissolver laços e alterar a formação e a percepção dos médicos, levando a graus diferentes de estresse físico-emocional. O desenvolvimento e aprimoramento da ética aplicada à medicina tornou as relações mais estáveis e niveladas. Isso, de um certo modo, permitiu que os interesses do paciente ganhassem luz frente aos interesses médicos. Entre os principais princípios éticos discorridos nos últimos tempos, citam-se: beneficência, não-maleficência, sigilo, autonomia e justiça. Sendo assim, espera-se que o médico faça e pretenda o bem (beneficência), sem acarretar o mal, mesmo sem intenção (não-maleficência), de forma a respeitar o sigilo e autonomia do paciente – tudo isso em um contexto buscando justiça. Com os problemas enfrentados pelo sistema público de saúde brasileiro e a dinâmica (por vezes, perversa) da maquinaria privada de assistência à saúde, fica a possível pergunta: diante do papel do médico na visão da sociedade, o que realmente importa ao paciente?
Cada paciente possui uma perspectiva diferente e todas as avaliações são influenciadas e dependem do conhecimento, da necessidade, dos interesses e dos valores de cada um. A qualidade do serviço é avaliada conforme a percepção do cliente, neste caso, o paciente. O ideal seria que o próprio paciente tivesse voz, dentro de determinados limites, pois estes são a única fonte e o único objetivo dos serviços médicos prestados. Importa aos médicos serem conscientes dos papéis dinâmicos e importantes que possuem na sociedade atual. Com a era da informação, o papel do médico muda: antes, o que era considerado como verdade absoluta, principalmente em se tratando de diagnósticos, hoje pode ser facilmente alterado conforme o avanço das tecnologias que ocorrem dia após dia. Nos consultórios, clínicas e hospitais muito se tem percebido em relação à mudança da postura dos pacientes, pois graças ao acesso à internet, eles têm conseguido aprender mais sobre doenças, tratamentos e práticas saudáveis. Assim, ignorando-se os contras dessa prática, observa-se que os pacientes se tornam mais ativos em suas decisões de saúde graças, sobretudo, à inclusão digital. Hoje quase não vemos pacientes que chegam aos consultórios sem antes terem navegado na Web, encontrando o diagnóstico da sua patologia e até o próprio tratamento. Não há o que se espantar ao ver um paciente indo a um consultório somente para confirmar o que já encontrou nos meios tecnológicos.
Há de salientar a importância ainda maior do conhecimento técnico dos médicos, que com casos assim, têm o dever de orientar e informar mais ainda os pacientes, sobre patologias, e diagnósticos. Desta forma, o que se lê e vê na Web não necessariamente é o que de fato precisa ser feito, e o conhecimento é a melhor arma para este tipo de caso. Por isso, cada vez mais os médicos devem estar utilizando até as próprias ferramentas que a tecnologia proporciona para se atualizar, se informar e estarem preparados para este novo jeito de praticar a medicina em pleno século XXI.
Os profissionais de saúde têm observado maior nível de acertos diagnósticos ao longo das décadas. Além disso, a genética tem auxiliado a prever doenças familiares e, aos poucos, decisões individuadas são pensadas para evitar doenças que antes seriam inevitáveis. A existência de prontuários eletrônicos torna mais segura a passagem da informação entre profissionais sem que haja extravio, assim como os dados científicos ao alcance da mão elevam o uso da medicina baseada em evidências, fazendo com que os tratamentos sejam cada vez mais eficazes e, em caso de dúvidas, é só consultar um bulário on-line. Qualquer pessoa pode ter acesso aos recursos supracitados, é só estar disposto a pagar alguns dólares ou saber como encontrar isso na internet… Além disso, observa-se também que a existência da “Big Data”, um grande sistema de cruzamento de dados clínicos-diagnósticos e terapêuticos, vai facilitar ainda mais o diagnóstico e o tratamento das doenças… Não só o médico poderá fazer isso, então? Como vai funcionar? Essas perguntas são mais importantes do que a resposta em si.
Para tentarmos entender esta questão, precisamos inicialmente questionar qual é o papel do médico. Segundo a Wikipédia, médico é aquele que “se ocupa da saúde humana, prevenindo, diagnosticando, tratando e curando as doenças”. Neste ponto, pode-se observar o aspecto puramente técnico de ser médico, aquele que valoriza as disciplinas acadêmicas como o pilar principal da profissão. É aquele que diagnostica e trata, fazendo estes processos com maestria. Isso é de fato valorizado pelo paciente, um médico confiante e competente em que eles podem confiar para recuperar sua saúde. Mas, se ser médico for apenas um processo lógico, ligado ao uso da memória e raciocínio de disciplinas do currículo acadêmico, então sim, a tecnologia conseguirá fazer isso tão bem – ou até melhor – que os humanos. A conjuntura atual não aceita mais médicos puramente acadêmicos. Um estudo publicado recentemente trouxe os pontos mais citados por pacientes quando pensavam em algo que admiravam em médicos, dentre eles habilidades acadêmicas e empáticas. A empatia não substitui ou minimiza as habilidades acadêmicas, mas se torna o diferencial entre um bom médico e um bom “técnico em medicina”. Isso porque a compreensão da importância dela faz com que o profissional compreenda os sentimentos gerados pela doença naquele indivíduo, bem como tem a capacidade de reduzir as mazelas e aumentar os bons sentimentos, fazendo com que o paciente possa ser tratado de forma integral.