Dermatologia e Inteligência Artificial: a nova era dos cuidados com a pele

Dermatologia e Inteligência Artificial: a nova era dos cuidados com a pele

Por ser uma especialidade altamente visual, a dermatologia está entre as mais favorecidas pelos avanços em inteligência artificial (IA). Ferramentas baseadas em visão computacional, algoritmos treinados com milhões de imagens e sistemas inteligentes de apoio à decisão clínica estão transformando desde o diagnóstico precoce do câncer de pele até o cuidado personalizado e preventivo com os pacientes.

Para entender melhor esse cenário e os desafios éticos que o acompanham, Rio Dermatológico conversou com três especialistas com visões complementares sobre o tema: o Dr. Thomás Novoa Jaeger, pesquisador no Instituto Azulay e coordenador do Departamento de Inteligência Artificial em Dermatologia da SBDRJ, Dr. Gustavo Filippo, dermatologista do setor de Laser e Tecnologias do Instituto Azulay e membro da Comissão de Jovens Dermatologistas da SBDRJ e o Prof. André Barcaui, consultor, escritor e palestrante sobre IA aplicada à saúde.

Todas as áreas da dermatologia estão sendo impactadas, e positivamente!

Para o Dr. Gustavo Filippo, todas as áreas da dermatologia estão sendo impactadas atualmente pela inteligência artificial e de forma positiva. “A questão é como usar, quando usar e qual usar.” Ele destaca o papel das LLMs (Large Language Models) e a importância do discernimento do médico quanto à fonte dos dados utilizados. “O médico tem que ter o discernimento de qual é aquela LLM que está utilizando e se essa LLM tem uma base de dados confiável, como artigos científicos dermatológicos, ou se é baseada em conteúdos populares, o que pode gerar respostas imprecisas.”
O Dr. Thomás Jaeger, que atuou como One-Year Research Fellow na Harvard University (EUA), complementa que, do ponto de vista da literatura científica e da precisão dos modelos atuais, a dermatoscopia e a detecção de câncer de pele são as áreas mais positivamente impactadas pela IA. “Algoritmos avançados já são aplicados em consultórios e centros hospitalares, no Brasil e no exterior, auxiliando na identificação precoce de melanoma e outras neoplasias cutâneas. Apesar da necessidade contínua de melhorias, o papel do especialista permanece fundamental e insubstituível.” Ele acrescenta que outras áreas em crescimento incluem o mapeamento corporal total assistido por robótica, ainda experimental, para capturar imagens de múltiplas lesões, e a teledermatologia com IA, especialmente útil em regiões com escassez de especialistas para triagem de casos.
A IA já atua com destaque na análise de lesões cutâneas, apoio ao diagnóstico em consultórios isolados e até na cosmiatria, auxiliando na indicação de procedimentos por meio da análise de imagens e como recurso de comunicação com os pacientes.

Diagnóstico precoce do câncer de pele: precisão de até 98%
Sobre o câncer de pele, Dr. Filippo cita uma IA brasileira, a AI Pathology, que recebeu reconhecimento internacional: “Ela teve uma precisão de 98% nos diagnósticos da doença. Usa um banco de dados com milhões de imagens que permitem treinar a IA para identificar com alta acurácia o que é uma lesão suspeita, maligna ou benigna.”
Dr. Jaeger explica que os algoritmos de IA têm auxiliado cada vez mais o dermatologista na tomada de decisões frente a casos suspeitos de câncer de pele, principalmente no contexto de dermatoscopia digital e mapeamento corporal. “A IA detecta padrões de alteração da normalidade — como assimetria, variação de cor e rede pigmentada atípica — e atribui uma probabilidade de malignidade, além de listar diagnósticos diferenciais. Isso ajuda o especialista a decidir sobre a necessidade de biópsia ou de vigilância em curto prazo.”
Ele ressalta ainda que, no acompanhamento longitudinal de lesões melanocíticas, a IA auxilia na comparação de imagens ao longo do tempo, detectando mudanças sutis que poderiam passar despercebidas. “Na telemedicina, a IA também ajuda a priorizar encaminhamentos a partir da Atenção Primária, reduzindo o tempo até a biópsia e o tratamento, com melhor uso dos recursos e mais equidade na priorização.”

Triagem e telessaúde: IA como filtro inteligente
“A dermatologia é uma das especialidades mais visualmente orientadas, o que torna o campo especialmente propício à adoção de IA baseada em visão computacional”, complementa o professor André Barcaui. Ele destaca o potencial da IA como ferramenta de triagem em regiões com baixa oferta de especialistas, por meio de dispositivos móveis e plataformas de telessaúde: “Esses sistemas funcionam como filtros inteligentes, sinalizando automaticamente lesões potencialmente suspeitas para avaliação especializada. Isso melhora o encaminhamento, reduz filas e fortalece o acesso à saúde.”
Dr. Jaeger observa que países como Reino Unido, Holanda e Austrália já testam e implementam fluxos de teledermatologia assistidos por IA para captação padronizada de imagens e triagem inicial de casos suspeitos de câncer de pele. “Nesses modelos, profissionais da Atenção Primária capturam imagens clínicas e dermatoscópicas com dermatoscópios acoplados a smartphones, seguindo protocolos de qualidade, e o algoritmo estima o risco para priorizar encaminhamentos.”

Ele enfatiza que esse modelo privilegia algoritmos com alta sensibilidade e alto valor preditivo negativo, minimizando a perda de casos graves e reduzindo encaminhamentos desnecessários. “É fundamental validar o desempenho desses sistemas em todos os fototipos, proteger os dados do paciente, obter consentimento informado e respeitar as normas regulatórias.”
Dr. Filippo alerta, porém, para o uso popular inadequado de aplicativos: “A automedicação com base em diagnósticos gerados por IA pode atrasar o tratamento de lesões malignas, especialmente quando a análise se baseia apenas em imagens tiradas com celular, sem dermatoscopia.”

IA na prática clínica: mais tempo para o médico cuidar do paciente
Além da atuação clínica, o professor Barcaui ressalta o impacto da IA na rotina das clínicas: “A IA tem sido usada para otimizar agendamentos, prever cancelamentos, automatizar o faturamento e até preencher partes do prontuário eletrônico com base na conversa médico-paciente, liberando o profissional para focar no cuidado.”
Dr. Filippo destaca também o futuro da chamada IA de ambiente: “Ela vai servir como um gravador, fazendo transcrição da conversa e sugerindo diagnósticos diferenciais e condutas terapêuticas. Isso permite que o médico mantenha o foco no paciente, olho no olho.”
Além disso, o dermatologista acredita que a IA será essencial no acompanhamento e follow-up, permitindo um elo mais próximo entre médico e paciente, orientando dúvidas e priorizando atendimentos de maior urgência.

Ética, personalização e o papel insubstituível do médico
Os especialistas são unânimes: a IA não substitui o médico.
“Ela veio para ajudar. Todos os fóruns que participo são unânimes nesse ponto. O objetivo da IA é dar mais tempo ao profissional para que ele possa ter uma melhor relação com o paciente”, afirma Dr. Filippo, que alerta para os riscos da padronização estética promovida por algoritmos na área da cosmiatria: “A IA pode seguir padrões para definir o que é bonito ou feio, mas isso não é uma realidade. Cada pessoa tem sua característica única. O médico deve adaptar as indicações e garantir um tratamento personalizado.”
O professor Barcaui projeta uma evolução dos modelos preditivos, com integração de dados como histórico médico, genética, exposoma e hábitos: “A IA deve evoluir de um papel reativo para um papel proativo e preventivo. Também veremos modelos explicáveis ganhando espaço, permitindo que o algoritmo não apenas diga o quê, mas também por quê.”
Dr. Jaeger acrescenta que, nos próximos anos, veremos avanços na medicina de precisão, com integração de dados clínicos e perfis genéticos para apoiar decisões, especialmente na seleção de imunobiológicos. Ele cita ainda o potencial dos wearables, com sensores para monitorar radiação ultravioleta em pacientes de alto risco e para acompanhar hidratação e integridade da barreira cutânea, prevenindo crises em dermatite atópica. “Há também dispositivos em estudo para detecção precoce de infecção em feridas crônicas e modelos de linguagem de proteínas que poderão acelerar a compreensão e tratamento de doenças genéticas da pele.”

O futuro já chegou, e é colaborativo!
A dermatologia está entrando em uma nova era, onde algoritmos e médicos atuam lado a lado. A IA amplia possibilidades, melhora o diagnóstico, otimiza recursos e fortalece a relação médico-paciente, desde que usada com responsabilidade, ética e senso crítico.

“A inteligência artificial não é o futuro. Ela é o presente. E cabe a nós, médicos, aprendermos a usá-la da melhor forma possível”, finaliza Dr. Gustavo.

Do banco de imagens à prática clínica: a IA a serviço do diagnóstico dermatológico
Algoritmos de aprendizado profundo, especialmente redes neurais convolucionais, vêm sendo treinados com milhões de imagens dermatológicas rotuladas para identificar padrões associados a diferentes tipos de câncer de pele, como o melanoma e o carcinoma basocelular.

Um dos marcos nessa evolução foi a criação do banco de imagens dermatológicas da International Skin Imaging Collaboration (ISIC), que fornece um repositório público robusto e padronizado para o treinamento e validação desses modelos.

Clique aqui para conhecer: https://www.isic-archive.com/